Preservação Ambiental: do local ao global

Fotos: Patricia Patriota / Local: Itiquira, Goiás, Brasil

Fotos: Patricia Patriota / Local: Itiquira, Goiás, Brasil

Ações de pequenos grupos locais podem mudar o mundo. Com o meio ambiente não é diferente.

Por Rodnei Vecchia

Ter a capacidade de enxergar a realidade e projetar o futuro para a sociedade sustentável é uma tarefa para seres humanos diferenciados. A liderança, exercida em um contexto relacional e motivacional, requer flexibilidade, capacidade de ouvir e visão de futuro em ambientes em que predominam valores éticos, que solidificam a relação entre líderes e liderados, em busca de objetivos comuns.

Prever o futuro nunca foi um ponto forte da humanidade, mas os avanços tecnológicos e científicos têm permitido aos cientistas desenvolver mundos virtuais cada vez mais reais.

O desenvolvimento econômico, ambiental e social sustentável, caminho visionário de um novo modo de viver, pode contemplar tecnologia de ponta, mas exige algum nível de renúncia e sacrifício; diferentes padrões de relacionamento social; organizações comunitárias coesas e solidárias, firmemente assentadas em processos motivacionais; e grupos com identidade própria e com valores e interesses comuns.

O modelo de desenvolvimento da sociedade está se esgotando. A geração de valor, com ênfase somente na maximização do lucro, na exploração de recursos naturais, humanos e no achatamento contínuo dos custos, cerne do modelo extrativista do capitalismo, mostra-se inviável, inócua e insuficiente, em perspectivas de médio e longo prazos. Exige-se da sociedade e das organizações públicas e privadas atuação na direção certa da sustentabilidade, com mais responsabilidade em relação ao meio ambiente em que atuam.

A crescente degradação dos recursos naturais e o aquecimento global, ao mesmo tempo em que trazem enormes perigos à civilização humana, proporcionam oportunidades de erigir uma nova era, a era da sustentabilidade, com desenvolvimento econômico e responsabilidade social e ambiental.

Enxergar esse novo momento ímpar da história da humanidade, ter a visão certa do que está ao redor e das mudanças em curso que transformam o mundo com rapidez é um processo extremamente complexo e de difícil percepção. A resolução dos problemas oriundos dessa nova onda depende da tomada de consciência da real dimensão do cenário atual e imediata ação de cidadãos, empresários e governantes.

O desenvolvimento sustentável é fruto de incontáveis ações de grupos coesos, solidários, formados por agentes sociais: especialistas, políticos, sociedade civil por meio de associações como as ONGs, grupos de pressão e mídia em geral. De verdadeiros líderes visionários que rompem velhos paradigmas e, em cooperação com a comunidade local, criam, desenvolvem e implantam iniciativas de sustentabilidade nos mais distantes locais.

Esses líderes abstêm-se de radicalismos para cuidar do meio ambiente a qualquer preço, mas empreendem um espírito progressista, responsável e realista em busca do equilíbrio necessário à qualidade de vida e à sua preservação. Os grupos e organizações consolidam-se, as ações sucedem-se e unem-se a ações de outros grupos regionais, nacionais e transnacionais, dando dimensão global àquela ação localizada.

Um exemplo de liderança visionária sustentável vem do Quênia, país africano, com a figura de Wangari Muta Maathai, bióloga, ativista ambiental, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2004 por sua contribuição ao desenvolvimento sustentável, à democracia e à paz. A decisão foi recebida com espanto pela comunidade científica mundial. A queniana, que se dedica a problemas ecológicos e sociais, fundou em 1977 o Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde) e mobilizou mulheres pobres do Quênia a plantarem milhões de árvores, com o objetivo de revitalizar as florestas debilitadas de seu país, fornecer lenha como fonte de energia a desamparados e tornar as mulheres participantes, ativas na melhoria da qualidade de vida de suas famílias.

O sucesso das ações de preservação e respeito ao meio ambiente obtido por Maathai colocou-a em conflito com o poder autocrático de seu país. Foi agredida e presa junto a parceiros, mas seus ensinamentos se propagaram pelo mundo e produziram milhares de seguidores. O movimento que liderou ajudou a abrir caminhos para a transição pacífica do Quênia de um regime ditatorial para um governo democrático, em 2003. Maathai foi vice-ministra do meio ambiente de seu país e seu lema é: “plantar árvores é como plantar sementes de paz”. Trata-se de uma ação de liderança local, em um país distante, pouco expressivo e pobre, que tomou proporções globais e fez seguidores.

No Brasil, o maior ícone da causa ambiental foi Chico Mendes, o acreano que obteve reconhecimento mundial ao organizar seringueiros e índios para a defesa da Floresta Amazônica, de seus meios de vida e para impedir os desmatamentos. Chico Mendes foi assassinado no dia 27 de dezembro de 1988, em Xapuri, aos 44 anos de idade, na porta de sua casa, a mando de um fazendeiro que teve seu seringal desapropriado.

Faz-se premente a construção de um novo modelo global de desenvolvimento equilibrado. Um modelo que esquematize e pratique a visão de desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável. Um novo mundo reglobalizado, a partir de ações locais com abrangência global, em busca de um convívio mais equilibrado, igualitário e justo, que reflita a verdade ecológica, na qual se insere a preservação de mananciais e áreas verdes, bem como o uso de energias limpas e renováveis.

Entusiastas congratulações ao poder constituído da Estância Turística de Piraju e às entidades representativas da sociedade local, como a ONG Adevida, por rechaçarem por completo as pretensões privadas de se construir uma nova usina no município. Os possíveis benefícios dessa empreita não superam os danos ambientais que obras desse porte produzem e, por águas passadas, a cidade já sabe disso.

A vocação do local é claramente o turismo e o agronegócio, atividades, aliás, arraigadas na rica cultura pirajuense e que fazem parte da história do município. As atuais e por certo as futuras gerações dessa sacrossanta terra roxa agradecem aos seus líderes visionários e à população em geral, por caminharem na direção certa, qual seja, a preservação da integridade do ainda viçoso Rio Paranapanema. Isto é desenvolvimento sustentável, isto é visão de futuro: em um pequeno pedaço de verde pintou-se uma bela obra local. Essa ação pode servir de modelo para obras globais de como preservar dádivas da natureza, sem comprometer o desenvolvimento da economia local.

 

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