Ouriço sofre por conta de falta de informação

 

Na última semana a clínica veterinária Amigo Bicho recebeu um ouriço bastante machucado que estava sendo espancado por, supostamente, ser muito perigoso. O animal foi salvo por uma pessoa que presenciou a violência e conseguiu resgatá-lo. Ele foi tratado pelas veterinárias Maria Beatriz Pellegrini e Priscila Mesiano, que entraram em contato com a Reserva Biológica de Araras para saber a melhor forma de devolvê-lo à natureza, já que agora está recuperado. O animal não estava envolvido em nenhum incidente com cães, apenas passava pelo local.
O ouriço é um dos animais que mais sofre com mitos e lendas atrelados à sua figura. Os espinhos que recobrem seu corpo dão asas à imaginação do ser humano, fazendo com que muita gente acredite que eles podem ser lançados ou mesmo tenham a capacidade de se locomover quando cravados na pele. Na verdade, os espinhos são a única forma de defesa do roedor, que somente consegue eriçá-los ao se sentir ameaçado. “Ele se encolhe formando uma bolinha, com isso, os espinhos da cabeça, dorso e rabo ficam à mostra. Eles só se soltam se forem tocados”, explica Maria Beatriz, ressaltando que o bicho não ataca.
Além de não jogar os espinhos e estes não terem o poder de “caminhar” pelo corpo, suas pontas também não possuem veneno, como diz a crença popular. “O espinho nada mais é do que o pêlo que sofreu mutação e, como acontece com cães e gatos, quando ele se sacode, alguns caem. O fato de encontrar os espinhos no chão pode levar as pessoas a pensar que eles foram lançados”, esclarece Priscila.
O ouriço vive nas matas, mas se aproxima das casas e quintais em busca de comida. Restos de lixo e ração atraem o roedor, que acaba se metendo em encrenca e correndo riscos, como o de ser atacado por cães ou pelo homem. E acidentes realmente não são raros. Quem nunca viu ou escutou o relato de um cão que tenha ficado com a boca (devido à mordida) cheia de espinhos? Numa situação como esta, ambos são vítimas, e para defender o bicho de estimação, basta que o dono espante o roedor ou impeça o cão de atacar. Se o ouriço costuma rondar o jardim, a solução é cercar o local, de preferência com placas de alumínio, já que cercas se tornam inúteis diante de sua excelente capacidade de escalar.
As especialistas alertam que, caso o ataque tenha ocorrido, é necessário levar o cachorro ao veterinário para fazer a retirada dos espinhos, já que o procedimento é extremamente doloroso. Além disso, há risco do espinho quebrar e causar uma infecção. Enquanto eles não crescem novamente, o ouriço fica mais vulnerável aos predadores, já que esta é sua única defesa.
O mascote da semana da clínica pesa 1,4 quilos e tem as características típicas da espécie: é manso, lento, extremamente pacífico e amigável. Depois de se acostumar com as pessoas à sua volta, o animal sequer eriçava os espinhos diante da aproximação e até curtia um carinho. “Ele é um dos roedores mais mansos e que mais sofre preconceito”, lamenta Maria Beatriz.
Recuperado dos ferimentos no olho e no focinho, que estava inchado e sangrando, além do dente quebrado, que crescerá naturalmente, o animal será levado pelos profissionais da Rebio de Araras que se encarregarão de devolvê-lo ao seu habitat natural. As veterinárias reforçam que não há necessidade de bater ou matar os ouriços, que têm importante função na natureza, ajudando na dispersão de sementes de árvores e flores, e lembram que maltratar animais é crime previsto na Lei de Crimes Ambientais nº 9.605/98.

Fotos:

1- 2- Paula Nogueira_Bicharada

3-   Miguel Monteiro_ Naturlink

Fonte: FERNANDA SOARES

Redação Tribuna de Petrópolis
 
Originalmente publicada em 23/07/2011
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