O desenvolvimento insustentável

As políticas econômicas convencionais estão tendo um enorme custo ambiental e social, insustentável no curto prazo, motivo pelo qual o planeta precisa de uma mudança urgente em seu enfoque de desenvolvimento. Este alerta consta do último Informe de Desenvolvimento Humano, divulgado no dia 25 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O chamado adquire importância vital com vistas à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá de 20 a 22 de junho no Rio de Janeiro.

“O enfoque de desenvolvimento não deve estar baseado na maximização do crescimento econômico, precisando contemplar também as dimensões de equidade e de sustentabilidade”, afirmou a coordenadora residente da Organização das Nações Unidas (ONU) no Uruguai, Susan McDade. O Informe destaca que o modelo de desenvolvimento predominante “ignora os impactos ambientais e as externalidades da atividade econômica”.

Segundo o documento, “isto acontece tanto em um sistema centralizado e controlado (a desaparecida União Soviética), em uma economia socialista liberalizada (China dos anos 1990) e em economias de mercado relativamente livres (Austrália e Estados Unidos durante grande parte do Século 20)”. O estudo acrescenta que, “continuar fazendo as coisas como sempre, não é nem sustentável e nem equitativo, mas as tentativas para avançar enfrentam restrições no âmbito da economia política”.

Por isso, o Pnud este ano enfatiza dois elementos básicos: sustentabilidade e igualdade. “Há dois eixos igualmente importantes, um é a sustentabilidade, em termos de recursos naturais e capital natural que um país usa, e o outro é como se distribui a riqueza, porque pode haver um produto interno bruto alto, mas, se estiver concentrado em 5% da população, o país estará mal”, indicou McDade.

Mesmo os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio manejam algumas metas exclusivamente econômicas que não permitem ver claramente a realidade, explicou McDade à IPS. Por exemplo, “o primeiro objetivo, sobre redução da pobreza, foi muito debatido em nível mundial porque usa justamente apenas o indicador de renda. Contudo, isto não diz nada, porque com um dólar pode-se comprar uma maçã ou um quilo de arroz, dependendo de onde se esteja”, destacou.

Por sua vez, Ana Agostino, analista do Pnud e autora de outro estudo focado no Uruguai, também apresentado no dia 25, alerta para que “se tome distância da concepção do desenvolvimento apenas como crescimento econômico. O desenvolvimento humano e o desenvolvimento sustentável necessariamente andam juntos, e se não é sustentável então não é real”, ressaltou.

O Pnud também faz menção em seu informe às ameaças do aquecimento global, e diz que a falta de consciência da população e os obstáculos impostos pelo poder político dificultam a tomada de ações contra o fenômeno. “Um dos principais obstáculos na hora de adotar medidas públicas para enfrentar os problemas ambientais é a falta de consciência”, destaca.

“Aproximadamente um terço dos habitantes do mundo parece desconhecer o problema da mudança climática, e somente a metade o considera uma ameaça grave ou sabe que é provocado, ao menos em parte, pela atividade humana”, diz o Pnud. Além disso, afirma que “nossa incapacidade coletiva de empreender ações também reflete a complexidade da arena política e o poder de grupos contrários à mudança”.

O informe do Pnud inclui seu habitual Índice de Desenvolvimento Humano, realizado desde 1990. Nesta oportunidade são diversos os países da América Latina que avançaram vários postos em relação à medição anterior, embora a região continue sendo a que apresenta maior desigualdade no mundo. Chile e Argentina passaram a integrar pela primeira vez o grupo de nações com “desenvolvimento humano muito alto”, ficando, respectivamente em 44º e 45º lugares, enquanto o Uruguai ficou no topo dos países com “desenvolvimento humano alto”, no posto 48.

Os demais países latino-americanos ocupam a seguinte ordem: Cuba (51), México (57), Panamá (58), Costa Rica (69), Venezuela (73), Peru (80), Equador (83), Brasil (84), Colômbia (87), República Dominicana (98), El Salvador (105), Paraguai (107), Bolívia (108), Nicarágua (129) e Guatemala (131). O Índice é encabeçado pela Noruega, seguido de Austrália, Holanda, Estados Unidos, Nova Zelândia, Canadá, Irlanda, Liechtenstein, Alemanha e Suécia.

O Pnud, em seu esforço para promover um enfoque de desenvolvimento que considere todas as dimensões, não apenas a econômica, introduziu este ano um Índice de Desenvolvimento Humano ajustado pela variável da desigualdade, analisando o conjunto da população, e não apenas a média, segundo expectativa de vida ao nascer, educação e renda. Quando se introduz esta variável, os países latino-americanos caem vários postos: Chile perde 11 lugares, Argentina 13, Uruguai sete, México e Panamá 15, e Brasil 13. Isto confirma a grande desigualdade existente na região, a maior do mundo.

O material complementar apresentado em Montevidéu, intitulado Uruguai: sustentabilidade e igualdade, alerta que este pequeno país carece de um modelo de desenvolvimento que considere suas implicações ambientais. Embora o Uruguai tenha obtido melhorias importantes no campo social, com importante redução da pobreza, da indigência e do desemprego, ainda não integrou plenamente o meio ambiente à sua agenda, disse Agostino. Este país de 3,3 milhões de habitantes ainda se caracteriza por uma alta concentração da terra, forte dependência dos recursos naturais e grande pressão sobre os ecossistemas costeiros.

O Uruguai tem a pegada ecológica mais alta da América Latina, isto é, a superfície terrestre e marítima que um país precisa para produzir os recursos que consome e absorver os dejetos que gera. Além disso, apresenta uma das mais altas porcentagens de espécies ameaçadas da região (12%) e uma das maiores taxas quanto à emissão de gases-estufa por habitante (8,1%), devido ao metano liberado na produção agropecuária.

Fonte: Envolverde/IPS

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