No passado, baleias mortas na praia pertenciam à coroa britânica

Uma baleia cachalote ficou encalhada em uma praia na cidade inglesa de Skegness há dez dias. Em anos recentes, é a quarta a aparecer na região, o condado de Lincolnshire.

Baleias mortas podem ser objeto de estudo científico e até atração turística, mas também trazem riscos à saúde pública.Quando a cachalote apareceu na praia de Skegness em uma manhã de sábado, centenas de pessoas foram ver o animal. Algumas fizeram questão de ser fotografadas ao seu lado.

Um acontecimento como esse é, porém, bem menos raro do que as pessoas pensam.

Segundo o CSIP (Programa de Investigação de Encalhamentos de Cetáceos), só em 2011 houve nove casos registrados de cachalotes que pararam em alguma praia britânica.

VENDA ON-LINE

No início deste ano, a polícia investigou relatos de que partes de uma baleia morta encontrada no condado de Norfolk estariam à venda no site Facebook.

O gerente de projetos do CSIP Rob Deaville disse que, em princípio, as partes da baleia pertencem à coroa britânica.

Apesar de biologicamente serem classificadas como mamíferos, “elas são como peixes reais”, explicou Deaville, que trabalha para a Sociedade Zoológica de Londres.

“Um estatuto muito antigo deu ao chefe da coroa o direito sobre todos os cetáceos encalhados em torno do Reino Unido. O rei tinha direito à cabeça e a rainha tinha direito à cauda”.

Deaville não tem conhecimento, no entanto, de que um monarca tenha de fato requisitado um pedaço de uma baleia.

“A prerrogativa real foi transferida para o Receiver of Wreck (oficial que lida com questões legais relativas a naufrágios) da Agência da Guarda-Costeira e Marinha britânica, mas na prática nosso projeto é o primeiro a ser chamado.”

Após ser informado sobre o encalhamento, o CSIP decide se quer ou não examiná-la.

Espécies de baleia também são coletadas pelo Museu de História Natural de Londres. Como parte de um acordo negociado em 1913, a instituição tem acesso a cetáceos encalhados para investigações científicas.

“Elas são tão difíceis de estudar no seu habitat, que encalhamentos dão a você uma oportunidade única de aprender mais sobre elas”, disse Deaville.

Desde 1990, o CSIP já registrou cerca de 10.500 encalhamentos de cetáceos (ordem de mamíferos que inclui baleias, botos e golfinhos), mortos e vivos. Destes, cerca de 10% eram baleias.

Dos 10.500 encalhamentos, o CSIP fez exames em cerca de 3.000.

Às vezes, os testes são feitos antes de a baleia ser removida –dependendo do tamanho do animal e das dificuldades de transporte.

DECOMPOSIÇÃO

No caso da baleia encontrada em Skegness, especulou-se que o animal teria sido morto por um barco, porque havia um grande corte na pele do cetáceo.

Ela não foi examinada porque os especialistas decidiram que estava em estado de decomposição avançado demais.

“Pode ter sido uma pancada por um barco, mas não podemos dizer ao certo sem termos examinado (a baleia)”, disse Deaville após olhar algumas fotografias.

Se os incidentes com baleias são resultado de atividade humana, as informações coletadas podem ser usadas para prevenir mais mortes.

Deaville disse que muitas baleias também morrem de fome. “Apenas cachalotes machos ficam encalhadas no Reino Unido e todas as que examinamos após a morte mostravam evidências de falta de alimentação recente”, disse.

As cachalotes normalmente encalham na Escócia ou na costa leste da Inglaterra. “Parece que elas entram no mar do Norte, onde não conseguem se alimentar”, disse. “As fêmeas são provavelmente parte de uma unidade matriarcal em outro local.”

SAÚDE PÚBLICA

Uma das mortes de baleia que mais chamou a atenção no Reino Unido nos últimos anos foi o caso de uma baleia da espécie Hyperoodon ampullatus, também conhecida como nariz-de-garrafa-do-norte, que nadou rio acima pelo Tâmisa em janeiro de 2006 e morreu apesar dos esforços para salvá-la.

Um ano mais tarde, emprestado pelo Museu de História Natural, o esqueleto da baleia foi exposto na sede de um jornal britânico.

Em setembro de 2009, várias pessoas se revezaram para subir no corpo de uma baleia minke que apareceu morta em Barry, no vale de Glamorgan, no País de Gales.

Mas um corpo de baleia em decomposição pode trazer riscos à saúde pública, o que significa que autoridades locais ou proprietários de terrenos (no caso de praias particulares) normalmente são responsáveis pela remoção das carcaças.

“Houve casos em que (a carcaça) foi deixada no local para se decompor naturalmente, pois não era possível removê-la”, disse Deaville. “Em algumas regiões da Escócia algumas baleias foram enterradas.”

Os custos de remoção variam de acordo com o peso do animal. No caso da baleia encontrada em Skegness, a prefeitura local calcula que vai gastar em torno de RS$ 30 mil com a operação.

Muitos dos animais acabam em depósitos de lixo, mas incineração e processamento da carcaça (para obter óleo, por exemplo) também ocorrem.

EXPLOSÃO

Em 1970, autoridades em Florence, no Estado de Oregon, Estados Unidos, optaram por explodir uma baleia como forma de dispor da carcaça. A operação foi filmada.

“Não fazemos assim no Reino Unido e também não aconselhamos esse método, porque você acaba com a praia cheia de pedaços de baleia que precisam ser removidos de qualquer maneira”, disse Deaville.

No entanto, baleias mortas podem explodir naturalmente. Em 2004, uma cachalote estava sendo transportada para um centro de pesquisas em Tainan. “Ela explodiu no caminho por causa dos gases que se acumularam dentro”, disse Deaville.

“Não sabemos quanto tempo levaria (para uma baleia explodir). Isso dependeria de vários fatores.”

Fonte: Folha.com

Baleias que morrem em praias acabam em depósitos de lixo; incineração e processamento da carcaça também ocorrem

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