‘Não basta esverdear a economia’

Principal articuladora do setor privado brasileiro no processo da Rio+20Marina Grossi procura olhar além das restrições que transparecem nas negociações políticas em torno da declaração final da conferência. “Prefiro associar o desenvolvimento sustentável a grandes oportunidades, não só de negócios, mas também de felicidade para as pessoas”, diz. Marina atuou nas negociações do Protocolo de Kyoto, representou o G77 mais China na área de Mecanismo Financeiro, foi assessora do Ministério da Ciência e Tecnologia e fundou a Fábrica Éthica Brasil onde lançou a iniciativa “Carbon Disclosure Project”. Depois, como coordenadora da Câmara do Clima no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), ajudou a trazer para o Brasil o “GHG Protocolo”, a ferramenta mais usada para medir as emissões de gases de efeito estufa. Atual presidente executiva do CEBDS, organização com status consultivo junto às Nações Unidas, participou da conferência de alto nível realizada na Holanda com o setor de negócios e indústria para a Rio+20, na primeira quinzena de abril. De lá, respondeu por email à seguinte entrevista ao site de VEJA:

Como as empresas esperam contribuir na transição para a chamada economia verde?
O holofote que a Rio+20 está jogando sobre a economia é muito importante, porque estimula o setor produtivo a entrar na discussão. O setor produtivo não enxerga a economia verde como uma alternativa ao desenvolvimento sustentável. Não se trata de “esverdear” a economia, mas de repensar o modelo de produção. O termo “economia verde” pressupõe que o crescimento econômico e a responsabilidade ambiental trabalhem juntos, se fortalecendo e apoiando o desenvolvimento social. Ou seja, falamos de uma economia que deve resultar em melhor qualidade de vida, desenvolvimento social e redução de riscos ambientais e demanda sobre recursos ecossistêmicos escassos.

O relatório Visão 2050 do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD) estima que o mercado voltado para a economia verde possa chegar a 1,5 trilhão de dólares em 2020 e até 10 trilhões de dólares em 2050 – considerando-se os preços atuais. Entre as oportunidades de negócios, pode ser destacada a tecnologia de informação e pesquisa e desenvolvimento para aperfeiçoar sistemas públicos como o abastecimento de água, ou a coleta de esgoto. Nos sistemas de produção, o objetivo deve ser cuidar do ciclo de vida completo de materiais – desde a produção até o descarte. Dentro da economia verde, plantar árvores, aumentar a bioprodutividade das florestas, recuperar áreas degradadas e evitar o desmatamento vão contribuir para o desenvolvimento através de pagamentos por serviços dos ecossistemas.

Que impacto teria sobre o setor privado a adoção de um índice medidor de progresso que considere também a qualidade de vida?
É necessário que, no futuro, uma redução do PIB acompanhada do aumento da qualidade de vida possa ser considerada um sucesso. Hoje, é vista como uma falha do governo. Para mudarmos essa realidade, a sociedade deve compreender e acompanhar os fatores que contribuem para a satisfação e a felicidade das pessoas, possibilitando a empresas e governantes experimentarem várias formas de tornar acessível a todos na sociedade um estilo de vida sustentável, lidando igualmente com as metas de desenvolvimento humano e bem-estar. Outra medida importante é considerar que os recursos naturais “prestam serviços” à economia. Ou seja, na natureza o valor de troca ou venda de um recurso não pode ser definido apenas pela medida de utilidade que este recurso tenha. Isso tem que ser traduzido em preços aceitos mundialmente.

No tema da segurança alimentar, as empresas são criticadas pelas ONGs, que as acusam de serem oportunistas ao aderir à pauta do incentivo ao uso de novas técnicas agrícolas – por exemplo, as sementes transgênicas – para aumentar a produção e a qualidade dos alimentos. Qual é o ponto de vista do setor privado?
As empresas tentam trabalhar na melhoria da logística de distribuição dos alimentos. Dados do Instituto Akatu indicam que perto de 44% do que é plantado se perde na produção, distribuição e comercialização. Com mais 20% de perdas no processamento culinário e hábitos alimentares, as perdas totalizam 64% em toda cadeia.

As pesquisas agrícolas desenvolvidas são fundamentais para garantir a oferta de alimento adequada no futuro sem gerar externalidades negativas aos ecossistemas. Dentre os principais desafios para que o setor mantenha um desempenho positivo no Brasil, vale ressaltar que é necessário um conjunto de políticas estruturais e assistenciais, que ataquem principalmente os grandes problemas de desigualdades regionais e de renda.

O CEBDS lidera um esforço em prol de uma agricultura sustentável, envolvendo as empresas para que percebam que a sobrevivência delas depende da conservação da biodiversidade. É nosso papel promover uma agricultura de baixo carbono, que trabalhe para aumentar a produtividade sem expandir a área plantada, garantir o uso eficiente dos recursos hídricos, incrementar a pesquisa e desenvolvimento agrícola, treinar agricultores e ampliar as variedades de culturas, entre outras tarefas.

Está também na mesa uma grande discussão sobre privatização do saneamento básico.
Apesar do Plano Nacional de Recursos Hídricos reforçar a responsabilidade do poder público quanto ao saneamento e tratamento de esgotos, as empresas têm muito a contribuir com desenvolvimento tecnológico, tecnologia da informação e investimentos em parcerias público-privadas. As empresas têm responsabilidade com a pegada hídrica: a água é um bem que precisa ser valorado devidamente para que o setor empresarial insira este custo no valor de seus produtos e façam o uso adequado deste recurso, investindo na redução do uso, reciclagem e reposição e na proteção, recuperação e conservação das nascentes.

Indo além na questão, o marco institucional legal brasileiro é suficientemente robusto no ponto de eficiência hídrica: de fato, mais que um simples cumprimento legal de suas obrigações, as empresas – em especial as maiores, intensivas em uso da energia, indústria de transformação, alimentos e afins, e de escopo nacional – vão além, por já terem percebido que a eficiência no uso da água em seus processos industriais é um pressuposto caso queiram manter a competitividade.

Sobre a gestão de oceanos, discute-se a cobrança de pedágio para uso dos mares – como as empresas se posicionam, já que isso poderá encarecer frete de produtos, por exemplo?
Essa discussão é muito recente, especialmente no Brasil. As empresas ainda não se posicionaram conjuntamente quanto a isso. Um documento próximo à discussão foi emitido pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) nas últimas duas últimas conferências do clima (2010 e 2011).

As empresas são a favor da expansão do uso de energia renovável? Há mercado no Brasil?
Entre 2000 e 2010 constatou-se um aumento de 42% na demanda de energia no Brasil. O consumo per capita de energia no país, entretanto, ainda é baixo quando comparado com os dos países europeus de clima semelhante, como Itália e Portugal. Portanto, apesar de quase metade (45%) da matriz energética brasileira energia proveniente de fontes renováveis, o país terá que ampliar sua matriz energética para suprir o rápido crescimento da demanda, proporcional ao aumento da população e atividade econômica. O país visa manter sua posição de liderança em sustentabilidade energética, portanto, deve preservar a proporção de renováveis na matriz considerando o crescimento esperado. Consequentemente, existe sim um grande mercado para energias renováveis. Esse mercado é justamente complementar à energia hidrelétrica. A tendência futura é ir substituindo a construção de térmicas por energias complementares à hidrelétrica, como a biomassa, a eólica (principalmente) e a solar.

As empresas têm enorme influência nas emissões de carbono. Como se comportam quando se toca na questão de influenciar os consumidores a comprar de quem emite cada vez menos, como pressupõe a plataforma europeia para a Rio+20?
Antes de tudo, uma correção necessária: o setor empresarial brasileiro tem, sim, alguma influência no total de emissões de carbono nacional, porém esta longe de ser enorme. Proporcionalmente, o setor empresarial emite, ao todo, apenas 1/10 da soma nacional, muito atrás de nossos principais emissores – desmatamento e uso do solo. Ressalva feita, isso não significa que as empresas brasileiras não terão que arcar com algum ônus da mitigação das mudanças climáticas: o Plano Setorial da Indústria da Política Nacional de Mudanças Climáticas estipula que os setores que mais têm influência no total de emissões deverão reduzi-las em 5% com base em uma curva potencial de crescimento até 2020. Dessa maneira, uma das estratégias igualmente vantajosa para as empresas e para o país como um todo é estabelecer diferenciais (como selos de eficiência energética, produto de baixa emissão etc.) a fim de indicar ao consumidor tal diferença – poucos sabem, mas as indústrias do plástico e cimento do Brasil são exemplos de liderança mundial em redução de emissões. Isso vem também, é claro, de uma política educacional de base sólida e que ao mesmo tempo enalteça essa preferência por produtos de baixo carbono e esclareça que, por vezes (como nos casos citados), produtos nacionais, ainda que potencialmente um pouco mais caros, são de melhor qualidade e de menor impacto ao meio ambiente que os produtos importados.

Um tema forte da Rio+20 tem sido a possível criação de uma agencia ambiental mundial para regular uso de recursos naturais: como as empresas compreendem um cenário que poderá até criar barreiras protecionistas, novas modalidades de multas ambientais, entre outros aspectos?
Costumamos nos deparar com uma ideia popularmente aceita de que, para as empresas, quanto menos governo, ou quanto menor a regulamentação, mais positivo é o cenário e o crescimento econômico. Porém, o resultado de um mundo com governança financeira e multilateral fraca tem causado um histórico de crescimento alternado por crises econômicas, escalamento das tensões sociais e aumento dos riscos ambientais. A governança atual trata mal a abrangência, magnitude e urgência dos nossos desafios sistêmicos. Estabilidade e regras claras são requisitos básicos para o crescimento e sobrevivência dos negócios. A definição da estrutura organizacional internacional para gerir os temas deverá ser acordada entre os países. O importante é que o resultado seja uma estrutura multilateral que contemple as três dimensões do desenvolvimento sustentável: econômica, social e ambiental, e que tenha o poder e a agilidade necessária para auxiliar e acelerar na mudança em direção a um mundo mais sustentável.

As empresas são simpáticas à criação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável?
Achamos importante que seja aprimorado o processo para o estabelecimento das novas metas, garantindo a participação do setor empresarial, para que os objetivos sejam audaciosos, mas realistas e de fato sejam cumpridos. Esperamos metas claras, significantes, com bases científicas e mensuráveis, como o primeiro passo para uma política de longo prazo. As metas do protocolo de Quioto e os Objetivos do Milênio são exemplos de processos de construção bem sucedidos, com métricas e prazos estabelecidos. As metas norteiam as ações das empresas, governos e sociedade civil ao mesmo tempo em que nos permitem verificar nosso progresso e, conforme necessário, corrigir estratégias. Os grandes benefícios de objetivos claros é que, além de promoverem alinhamento entre diversos setores da sociedade, reduzem a incerteza e risco e promovem o diálogo entre as partes. O setor empresarial acredita que objetivos e metas tornam a nossa economia mais eficiente.

Fonte: Planeta Sustentável

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