“Ler livros e jornais em papel é melhor para o ambiente que usar computadores e iPads”

As empresas de equipamentos electrónicos dizem na sua propaganda que um leitor que utilize um iPad, por exemplo, para leitura de livros, revistas e jornais tem metade do impacte ambiental de um leitor que leia livros em papel. Concorda?

Isso não é demonstrável cientificamente. O que acontece é que o negócio dos equipamentos electrónicos e de tudo o que lhe está associado é o negócio do século e como as pessoas são sensíveis às questões ambientais, usa-se esse argumento.

Actualmente quando alguém pega numa folha de papel é acusado de estar a contribuir para destruir as florestas.

Não faz qualquer sentido dizer isso. Não se está a destruir qualquer floresta. Não é isso que acontece. O papel é produzido a partir da floresta industrial que é plantada, cortada passados alguns anos e replantada.

Não é uma vantagem ambiental acabar com livros e jornais em papel?

A única vantagem é para os negócios. O papel não é nenhuma ameaça ambiental. O papel é feito a partir de árvores. As árvores são um produto natural. É verdade que se destruirmos a floresta e não plantarmos nada a seguir, isso é um atentado ambiental incrível mas se formos replantando estamos a desenvolver o processo natural que tem a grande vantagem de fixar o dióxido de carbono, que resulta da utilização dos combustíveis fósseis. Por outro lado, em termos de energia eléctrica a indústria do papel é auto suficiente porque uma parte da árvore é utilizada para queima. Além de que após a utilização o papel é facilmente biodegradável e é um produto natural que é celulose.

Os fabricantes de equipamentos electrónicos dizem que a maior parte dos componentes são recicláveis.

As consequências em termos ambientais da indústria electrónica não são totalmente conhecidas. Há informação que não é divulgada. Há um enigma. O que é feito do lixo electrónico? Todos esses equipamentos que se entregam e que as empresas recolhem para troca, o que é feito deles?

Eles dizem que reciclam até 90 por cento.

Eu gostava era de saber se a Apple, por exemplo, tem alguma fábrica onde faz isso ou se diz apenas que isso pode ser feito. A questão é essa. A Europa produz dez milhões de toneladas de lixo electrónico por ano. É verdade que há algumas unidades de reciclagem mas há uma grande parte do lixo electrónico ao qual perdemos o rasto. Há versões que dizem que para África estão a ir toneladas, para lixeiras. Já houve reportagens publicadas. E são produtos perigosos. Era interessante rastrear esse lixo electrónico.

A indústria do papel também não tem as mãos limpas.

Há uns anos a indústria do papel, como todas as indústrias, produzia efluentes não tratados ou minimamente tratados. Havia os maus cheiros e a poluição dos rios. Mas isso tanto era verdade para o papel como para todos os sectores industriais. Hoje há um cuidado com isso. Foram desenvolvidas novas tecnologias e feitos novos investimentos para minimizar esses efeitos.

A contestação é maior em relação às celuloses.

Porque estão aqui ao pé na nossa porta. As pessoas não têm percepção dos impactos ambientais da fabricação dos equipamentos electrónicos porque eles são produzidos longe daqui. São produzidos quase cem por cento nos países asiáticos. Eles é que ficam lá com a poluição. Se aquelas unidades industriais estivessem aqui as pessoas tinham outra sensibilidade.

Não consegue escapar à utilização dos equipamentos electrónicos?

Uso equipamentos electrónicos como quase todas as pessoas mas leio os jornais, livros e revistas em papel. Gosto do contacto com o papel. É mais ecológico e gasta-se menos energia.

É verdade. Quando estamos a usar um computador para ler um livro ou jornal, ele consome energia e um livro não.

Não é só o nosso computador que consome energia. São todos os servidores a que estamos ligados e a que acedemos. E esse consumo de energia é algo brutal. O papel, depois de impresso, deixa de consumir energia. E é reciclável e biodegradável. Se deitar uma folha de papel na água ela passado pouco tempo desfaz-se.

Se o iPad cair lá para dentro…

Fica lá mil anos.

O Estado acaba com o comboio para ter mais receitas fiscais com os carros

Em termos económicos e ambientais o transporte público é imbatível. Há alguma possibilidade de fazer com que seja mais utilizado que o transporte individual?

O carro individual representa uma grande comodidade e está associado à liberdade. Foi o grande negócio do século XX e apesar de ser um contra-senso económico e ambiental vai continuar a ser privilegiado.

O Estado também já deu mostras que não tem qualquer interesse nos transportes públicos, nomeadamente na ferrovia.

Para contentamento dos cidadãos e grande benefício do Estado, incentivou-se fortemente a utilização do automóvel.

Qual é o benefício para o Estado?

O transporte público é uma unidade de despesa para o Estado, enquanto que o transporte individual é uma fonte de receita, não só através dos impostos directos mas também através dos impostos sobre os combustíveis. Isso explica porque nos últimos trinta anos o grande investimento em mobilidade foi em estradas e auto-estradas. Veja o tempo que andaram para remodelar a linha do Norte e não concluíram. Entretanto o TGV foi adiado e estão a fechar linhas de caminho-de-ferro. Em termos de investimento no transporte ferroviário o pouco que foi feito foi nas zonas suburbanas.

Para o Estado é um bom negócio fechar linhas de caminho de ferro?

Um excelente negócio. Corta-se na despesa e como as pessoas passam a ter que utilizar carro geram-se receitas.

Mal por mal, em termos ambientais é então preferível utilizar os carros movidos a electricidade?

Nós importamos à volta de 270 mil barris de petróleo por dia. E dois terços desse combustível é destinado aos transportes. A energia eléctrica é uma boa alternativa. Agora é preciso saber onde é que vamos buscar energia eléctrica. Se vamos buscá-la a centrais a carvão, ficamos na mesma em termos ambientais.

As chamadas energias limpas são solução?

Com a energia eléctrica produzida através dos aerogeradores (eólicas) não temos qualquer hipótese, porque produzem pouco e só produzem quando há vento. As barragens estão dependentes dos caudais dos rios e nós temos praticamente esgotada a capacidade de construir barragens.

A ideia que existe é que grande parte da energia que produzimos é através das eólicas.

Nós em Portugal temos cerca de duas mil torres, o que no total dá uma potência instalada de duas centrais clássicas de produção de energia.

Isso é bom.

É preciso não confundir potência instalada com a potência efectivamente produzida. Se não houver vento aquelas eólicas não produzem nada.

Quando os governantes falam em questões ambientais é só para inglês ver?

E para se fazerem bons negócios. As energias renováveis foram e são um bom negócio. Há subsídios.

Mas é uma energia barata porque o combustível é o vento e limpa.

Limpa é, mas também é caríssima. O Estado estava a gastar cerca de mil milhões de euros em subsídios às energias renováveis. Uma eólica que não gasta qualquer combustível porque o vento não é pago. Aquilo é só o custo da instalação da torre e o kW é vendido pelo dobro do preço do kW produzido numa central térmica. Parece ser um bom negócio. A eólica é uma energia caríssima.

Há informação sobre o custo de produção da energia eléctrica por fonte?

A EDP divulga na nossa factura as fontes de energia utilizadas para produzir a energia que nos fornece (gás natural, eólica, hídrica, outras renováveis, carvão, nuclear). Eu defendo que deveria divulgar também o custo por kW de cada uma. Ou seja, quanto custa um kW produzido por uma eólica ou por uma central a carvão, por exemplo.

Qual a energia mais barata?

Hoje é sabido que a energia produzida por centrais nucleares é mais barata. Eu já vi uma referência no site da Direcção Geral de Energia em determinada altura, em que era dito que a factura global com a compra de energia eléctrica tinha baixado em determinado mês porque tinha sido possível importar mais energia nuclear. Isto significa que há custos muito diferenciados.

Voltando à questão dos transportes. Para substituir todos os nossos carros por carros a electricidade só se tivéssemos uma central nuclear.

Quando se falou dos automóveis eléctricos os franceses foram os mais interessados porque eles dominam essa tecnologia na Europa. Em França há 60 reactores nucleares. Oitenta por cento da energia eléctrica que eles consomem é energia nuclear.

Está fora de questão a construção de uma central nuclear em Portugal.

Nesta altura está. Há indicações que dentro de poucas décadas haverá uma nova forma de produção de energia que é a fusão nuclear, que não tem os problemas que tem a fissão. E aí temos o problema da energia eléctrica resolvido. Mas é curioso que não se discute isto. É assunto tabu.

Eucalipto é fonte segura de rendimento

Estando ligado à indústria da celulose, presumo que não encare o eucalipto como uma árvore “assassina”, como acontece com certos ambientalistas.

O eucalipto deve ser olhado como uma fonte de rendimento. É uma floresta industrial. Nós podemos ter aquelas florestas para as pessoas andarem a passear, tipo a Mata do Buçaco, ou de Sintra, que estão associadas ao lazer, e à qualidade de vida mas temos que perceber se somos suficientemente ricos para só ter esse tipo de floresta. Se queremos tirar benefícios económicos da floresta, temos que pensar em espécies que têm valor económico. E as espécies que têm valor económico em Portugal são o pinheiro e o eucalipto.

Diz-se do eucalipto que seca tudo à sua volta.

Isso não está provado. Pode consumir mais água que um pinheiro que tem um crescimento mais lento mas consome menos água que uma couve, por exemplo, ou que um tomateiro.

A plantação de eucaliptos vai ser liberalizada. Nem autorizações prévias nem pareceres. Vai bastar uma comunicação prévia. Concorda?

Não concordo. Tudo o que é exagerado é mau. As monoculturas são sempre um inconveniente. O exagero das plantações de uma só espécie é sempre mau e em termos ambientais também. Há um problema grave em Portugal que tem a ver com a quase inexistência de técnicos do Estado suficientemente independentes para aconselharem bem os decisores.

E aqui aconteceu o mesmo?

Não me custa acreditar que sim.

Se houver mais eucaliptos ou seja, mais oferta, quem ganha é a indústria que pode comprar matéria prima mais barata.

O aumento da plantação de eucaliptos tem explicação. O risco de incêndio em Portugal hoje é tão grande que os pequenos proprietários preferem espécies que cresçam mais depressa porque assim reduzem eventuais prejuízos. Um pinheiro está em corte passados 20 anos. Tem o rendimento suspenso vinte verões. Se lá chega o fogo o prejuízo é enorme. O eucalipto fica pronto para o corte em seis anos. É um investimento mais seguro. Há muita falta de eucalipto e de pinho para a indústria mas os pequenos proprietários não plantam pinho por causa disto.

Fonte: Semanário O Mirante

Professor Rui Sant’Ovaia do Politécnico de Tomar questiona propaganda da indústria de equipamentos electrónicos

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