Investimentos em renováveis abrem 2012 em baixa

Após a boa maré que atingiu as energias limpas em 2011, levando estas a alcançarem recordes de investimentos, a corrente parece ter mudado para o setor renovável em 2012. Segundo novos dados das consultorias Bloomberg New Energy Finance (BNEF) eClean Energy Pipeline, o primeiro trimestre teve baixas nos investimentos verdes, e as previsões indicam que o cenário deve continuar assim pelo menos até o final do ano. Agora resta saber se os bons ventos voltarão a soprar para indústria renovável, ou se esta irá naufragar frente às águas turbulentas que estão revolvendo a economia mundial.

De acordo com as informações da BNEF, publicadas na última quinta-feira (12), os novos investimentos financeiros em energia limpa feitos durante o primeiro trimestre de 2012 chegaram a US$ 27 bilhões, uma retração de 28% em relação ao trimestre anterior e de 22% em relação ao mesmo trimestre de 2011.

“Um trimestre com US$ 27 bilhões não é um desastre, mas é o mais fraco desde os tristes US$ 20 bilhões vistos no primeiro trimestre de 2009, quando a crise financeira estava em seu auge”, comentou Michael Liebreich, CEO da Bloomberg.

Já os dados da Clean Energy Pipeline, apresentados na última sexta-feira (13), apontam para uma cifra de US$ 34,4 bilhões no financiamento de projetos renováveis no primeiro trimestre de 2012, o nível mais baixo desde o terceiro trimestre de 2010. Os investimentos em capital de risco e capital privado, por sua vez, atingiram US$ 2 bilhões, o valor mais baixo em três anos.

“Grandes bancarrotas na cadeia de suprimentos solar mandaram os fundos de capital de risco embora. Quase toda a transação solar no 1º trimestre de 2012 envolveu empresas em estágio final que já haviam garantido um financiamento significativo. As companhias em estágio inicial no setor não tiveram chance”, observou Douglas Lloyd, CEO da Clean Energy Pipeline.

Ambos os relatórios responsabilizam a recessão econômica e o término de subsídios para as energias limpas por essa baixa nos investimentos renováveis. Na Europa, por exemplo, governos de países como a Alemanha, a Espanha, a Itália, a Polônia e o Reino Unido anunciaram cortes em incentivos para projetos de energia renovável.

Já nos EUA, um importante mecanismo para a energia eólica, a Taxa de Crédito de Produção (PTC), deve ser encerrado no final de 2012, a menos que o Congresso norte-americano concorde em estendê-lo. Conforme a Associação de Energia Eólica dos EUA, da última vez que essa taxa foi suspensa, no final de 2003, as instalações anuais de energia eólica caíram de 1.670 megawatts (MW) em 2003 para 397 MW em 2004.

“Os números fracos do primeiro trimestre refletem a incerteza instável sobre o futuro do apoio para a energia limpa tanto na União Europeia, com a crise financeira, quanto nos EUA, com a expiração de programas de estímulo e o ciclo eleitoral”, explicou Liebreich.

“Com a expiração da PTC no final deste ano, não haverá realmente nenhuma [produção] eólica comissionada para 2012”, acrescentou Phyllis Cuttino, diretora de energia limpa da Pew Charitable Trusts.

Infelizmente, pelo menos nos próximos 12 meses, não há previsão de que esse panorama mude. “Não há sinal de uma recuperação rápida em nenhuma dessas regiões nos próximos 12 meses. O panorama para investimentos no resto do ano continua difícil”, lamentou o CEO da Bloomberg.

E isso apesar de os preços das energias eólicas continuarem a cair, ganhando competitividade em relação às fontes de combustíveis fósseis. “Tecnologias de energia limpa, particularmente a solar fotovoltaica e a eólica onshore, continuam a ter queda no preço e se aproximam da competitividade da energia de combustíveis fósseis, mas os políticos em muitos países parecem estar se esquivando das decisões que garantiriam que o setor se mantivesse em uma trajetória crescente”, declarou Liebreich.

Luz no fim do túnel

Mas as análises não trazem apenas más notícias para o setor renovável. O CEO da BNEF enfatizou que as empresas que conseguirem passar por essa instabilidade na indústria encontrarão benefícios nos próximos anos.

“Melhoramentos contínuos na economia do setor significam que as companhias que sobreviverem a esses próximos anos, ou no lado do fornecimento ou no lado da demanda da indústria, ficarão bem posicionadas na próxima fase de crescimento”, afirmou.

Além disso, as duas consultorias veem potencial nos mercados emergentes, o que acreditam que poderá amenizar as incertezas no setor. “Mercados emergentes começaram a ganhar vida durante o primeiro trimestre do ano. Acima de tudo, isso sugere um nível de conforto mais amplo, com esse setor dentro da comunidade bancária internacional”, informou Lloyd.

No entanto, Liebreich ressalta que a ascensão desses mercados não é garantia de que a recessão renovável cessará. “Estamos vendo crescimento em alguns mercados não-centrais no mundo, mas eles terão um trabalho duro para substituir a demanda enfraquecida no mundo desenvolvido.”

“O rápido incremento da competitividade das tecnologias de energia renovável estão estimulando a atividade, particularmente nos países em desenvolvimento. No entanto, está se tornando mais difícil ver o setor no mundo todo batendo o recorde do último ano, a menos que as nuvens na Europa e no Congresso dos EUA parem de trovejar e mandem alguns sinais claros sobre a importância de novas tecnologias energéticas”, concluiu.

Autor: Jéssica Lipinski   –   Fonte: Instituto CarbonoBrasil/Agências Internacionais

Após alcançarem recordes de US$ 263 bilhões em 2011, 6,5% a mais do que em 2010, dados sugerem que investimentos em energias limpas caíram no primeiro trimestre deste ano devido a incertezas nos mercados europeu e norte-americano

Após alcançarem recordes de US$ 263 bilhões em 2011, 6,5% a mais do que em 2010, dados sugerem que investimentos em energias limpas caíram no primeiro trimestre deste ano devido a incertezas nos mercados europeu e norte-americano

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