Inimigo desconhecido

O aquecimento da Terra tem impacto na vida diária dos habitantes da Ásia, mas estes têm pouco conhecimento sobre o fenômeno, declarou Ali Raza Rizvi, diretor do programa regional sobre mudança climática e resiliência da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Rizvi fez essa afirmação ao falar a um grupo de jornalistas durante um painel realizado em Bangcoc, e lamentou que, apesar de a Ásia ser uma região propensa a desastres naturais frequentes e mortais, o conhecimento e a consciência sobre a mudança climática e os eventos meteorológicos extremos continuam sendo escassos entre a população.

Para este especialista da UICN, o assunto está fora das fronteiras do discurso cotidiano do cidadão médio, apesar de a Ásia sofrer cada vez com maior frequência os efeitos do aquecimento global. É necessário que a mudança climática passe para primeiro plano nos debates, já que a maioria das pessoas a vê como um assunto do qual apenas os cientistas falam, disse Rizvi à IPS. Duas décadas depois da Cúpula da Terra realizada no Rio de Janeiro e de outra em Johannesburgo, a consciência sobre a mudança climática continua sendo pouca entre as populações de países como Sri Lanka, Índia, Tailândia e Vietnã. Rizvi explicou que nestes países existe uma ampla brecha entre o discurso científico a respeito do aquecimento do planeta e a consciência entre as populações mais afetadas.

Com a proximidade da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá de 20 a 22 de junho, os especialistas afirmam que é cada vez mais urgente conscientizar o público sobre o estado climático do planeta. “Não conseguimos comunicar adequadamente os assuntos relativos à mudança climática. Têm impacto em nossas vidas cotidianas de muitas formas, por exemplo, na disponibilidade de água potável ou na destinação de fundos para obras públicas”, apontou Rizvi. O que não se comunica bem é que qualquer mudança nos padrões climáticos tem um impacto direto sobre as vidas das pessoas, embora a princípio não entendam o vínculo, observou. “Temos que fazer com que o cidadão médio entenda que sofrerá o impacto pela chuva ou por sua falta”, ressaltou.

Damyanthi, gerente da seção internacional de um banco de Sri Lanka em Wattala, próximo a Colombo, capital desse país, é um perfeito exemplo deste problema. Ela declarou à IPS que não sabe praticamente nada sobre mudança climática ou os eventos meteorológicos extremos. “Realmente não entendo o assunto, é muito complexo”, disse, apesar de afirmar que está em dia com temas da atualidade.

Segundo os especialistas, nem mesmo aqueles cujos meios de sustento estão intrinsecamente ligados ao estado do tempo se encontram bem informados sobre os detalhes das variantes condições climáticas. Os cientistas prestam muita atenção no impacto da mudança climática, mas muito pouco dessa preocupação se transfere para a população comum, afirmou Lareef Zubair, que está à frente de um instituto do Sri Lanka que pesquisa o aquecimento global e seus efeitos na agricultura.

Nas regiões rurais do Sri Lanka, os agricultores não entendem totalmente porque os padrões das chuvas foram tão erráticos na última década, contou Zubair à IPS. “Parecem perceber que já não podem depender de chuvas consistentes, mas não têm ideia do motivo disso ou do que fazer”, acrescentou, lembrando que é necessário corrigir os problemas na comunicação dos assuntos climáticos, porque do contrário será difícil controlar os danos.

Rizvi alertou que sempre que persiste esta falta de conhecimento, mesmo as medidas efetivas para mitigar as consequências da mudança climática se tornam inúteis. “A ignorância piora a situação, e as medidas de adaptação e mitigação serão apenas planos de ação que não saem do papel”, destacou. A lentidão com que avança a mudança climática faz com que as pessoas tenham dificuldade para entender a gravidade da situação, acrescentou.

Alguns especialistas consideram que os últimos eventos meteorológicos extremos podem ajudar a provocar interesse maciço no aquecimento planetário. Ritu Dave, especialista em mudança climática do Instituto do Banco Mundial, com sede em Washington, indicou à IPS que nos últimos tempos aumentou a conscientização sobre estes fenômenos, especialmente em partes da Ásia que sofrem catástrofes vinculadas ao clima.

“A população parece estar se conscientizando de que os eventos meteorológicos extremos podem ser perigosos”, disse Dave à IPS por ocasião de um painel sobre desenvolvimento urbano realizado em Colombo. Os estudantes são mais receptivos aos programas de capacitação e conscientização, bem como uma potente arma contra a ignorância, afirmou, acrescentando que “são eles que podem mudar a maneira com as coisas são feitas em suas próprias casas”. Rizvi acredita que a Rio+20 não deve limitar-se a reunir políticos, devendo ser usada para centrar a atenção maciça na crise.

Fonte: IPS

As comunidades pobres são as mais prejudicadas pelos eventos meteorológicos, mas as menos informadas sobre a mudança climática. Foto: Amantha Perera/IPS

As comunidades pobres são as mais prejudicadas pelos eventos meteorológicos, mas as menos informadas sobre a mudança climática. Foto: Amantha Perera/IPS

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