Faz Diferença: “Ciência é agente de transformação social”

Personalidade 2011, Miguel Nicolelis é responsável por uma das mais importantes pesquisas na área de neurociência do mundo. Seu grupo, na Universidade de Duke nos EUA, trabalha com a interface cérebro-máquina, cujo objetivo é conseguir mover membros virtuais com a força da mente, fazendo com que pessoas com paralisia voltem a andar. Mas além do trabalho científico, Nicolelis desenvolve um projeto social inovador numa das regiões mais pobres do Brasil. Desde 2005, coordena o Instituto Internacional de Neurociência de Natal (INN), no Rio Grande do Norte. Além do centro de pesquisa, conta com três centros de educação científica que atendem 1.400 alunos de escolas públicas da região; e, ainda, um centro de saúde, responsável por 12 mil atendimentos anuais para gestantes. Até o fim do ano, o grupo pretende inaugurar o Campus do Cérebro, uma área de 100 mil hectares a 20 quilômetros de Natal, ampliando ainda mais o projeto. “A ciência pode ter um impacto grande na construção da sociedade”, diz ele. Iniciativa do GLOBO, com o patrocínio da Firjan, o Prêmio Faz Diferença chegou ao nono ano, homenageando as pessoas e as instituições que mais contribuíram, com seu trabalho e talento, para mudar o país. Como nas versões anteriores, além da Personalidade do Ano, foram escolhidos aqueles que fizeram diferença em 17 categorias. A cerimônia de premiação será em março.

O senhor desenvolve uma pesquisa científica de ponta, nos EUA, e, ao mesmo tempo, coordena um dos mais importantes e inovadores projetos sociais do Brasil, unindo ciência, educação e saúde. A ciência pode ser social?

MIGUEL NICOLELIS: É um experimento novo, muito raro, cujo exemplo acho que só existe aqui no Brasil, que surpreendeu meus amigos e a comunidade internacional não habituada com a prática da ciência e o uso do método científico como transformadores sociais.

Como surgiu essa ideia de usar a ciência como agente de transformação social?

NICOLELIS: A ideia veio da visão de que a ciência pode e deve contribuir para uma sociedade mais justa e democrática. Na maioria das vezes se fala de ciência como algo destacado da realidade social de um país, como se fosse um grupo de eleitos fazendo algo que a maior parte da Humanidade não entende. Mas a verdade é que a ciência pode ter um impacto grande na construção da sociedade.

De que forma?

NICOLELIS: Este é um século em que as sociedades vão ser chamadas a opinar sobre questões fundamentais para a espécie. É preciso haver um conhecimento científico mínimo ou as consequências podem ser dramáticas.

O senhor se refere ao aquecimento global?

NICOLELIS: Ao aquecimento global, à produção mundial de alimentos, às energias renováveis. Enfim, questões vitais que precisam ser embasadas num conhecimento científico razoável. Será preciso ter um mínimo de formação para entender o que essas questões representam e a sua magnitude. É preciso formar pessoas que entendam de ciência. É uma questão de soberania nacional. Os países que optarem por não investir em ciência ficarão cada vez mais dependentes dos que se esmeram no desenvolvimento científico. Trata-se de um desenvolvimento estratégico, na minha opinião.

Por que começar no Rio Grande do Norte?

NICOLELIS: A ideia era fazer no Nordeste que, em 2002, era uma das regiões mais carentes do país, com o mais baixo IDH, ao lado da Região Norte. Num lugar sem tradição de produção científica de ponta e com problemas sociais sérios o impacto seria maior. Se pudesse fazer isso lá poderia fazer em qualquer outro lugar do país.

Qual é a base do seu projeto educacional?

NICOLELIS: O método científico pode ser uma boa ferramenta pedagógica para criar um novo modelo de educação. A base do nosso projeto social é transmitir para as crianças as regras básicas da ciência, ensinando-as a estabelecer a relação de causa e efeito, a criar uma hipótese e tentar demonstrá-la. Trabalhamos hoje com 1.400 alunos e serão quase três mil em 2013.

Como o método é aplicado no dia a dia dos alunos?

NICOLELIS: Usamos a ideia do método científico para criar um currículo complementar para os alunos que cursam a escola pública. Nosso currículo é diferente, porque é feito por demonstrações práticas. Duas vezes por semana, no horário oposto ao da escola regular, a criança vai à escola de educação científica, onde passa por diferentes laboratórios: de português, geografia, história. A lógica de todas as matérias é demonstrada no laboratório.

Como se ensina português em um laboratório?

NICOLELIS: As crianças usam informática, usam jogos para entender a lógica de se criar uma sentença, por exemplo. As regras gramaticais têm uma lógica. Então, nossos alunos aprendem a língua por meio de exercícios lógicos, lúdicos. Elas aprendem como a língua é fundamental para expressar ideias. Todas essas são formas de fazer com que a língua fique mais viva para as crianças.

E o braço do projeto voltado para a saúde? Como ele se relaciona com o educacional?

NICOLELIS: O outro lado é o de levar o conhecimento da neurociência moderna — que demonstra que a formação do cérebro se inicia no período intrauterino e é crucial para a definição da potencialidade neuronal de qualquer indivíduo — para dentro do útero. Para isso, criamos um programa de pré-natal de alto nível, que atende às mães dos nossos futuros alunos. São 12 mil atendimentos por ano. Nossa prioridade é o pré-natal de alto risco, de mães hipertensas, diabéticas, soropositivas, o que não existia no Rio Grande do Norte. Apenas 15% da nossa receita são do SUS (Sistema Único de Saúde). O restante é proveniente de doações privadas. Estou em busca de um parceiro corporativo.

Quando é que os dois braços do projeto se unem?

NICOLELIS: Eles vão se complementar no ano que vem, com a inauguração da escola, em Macaíba, que terá capacidade inicial para 1.500 alunos, mas deve chegar a três mil. Vamos receber as crianças do pré-natal para o berçário e até o ensino médio. Tudo em tempo integral. Será o primeiro lugar no Brasil e, provavelmente, no mundo, em que as crianças serão seguidas, desde o útero até saírem para a universidade, no mesmo campus. É o projeto Educação Para Toda a Vida.

Que resultados o senhor espera obter desse projeto?

NICOLELIS: O projeto vai nos permitir atuar numa nova área do conhecimento, a neuroeducação. Vamos poder estudar o desenvolvimento humano, desde o período intrauterino até o fim da adolescência, e fazer com que a neurociência contribua com as estratégias pedagógicas. O pedagogo ensina o cérebro e o neurocientista entende como o cérebro aprende, mas um não fala com o outro. De tudo o que aprendemos nos últimos anos sobre como o cérebro armazena informação, como a memoriza, nada disso é aproveitado.

O projeto pode render frutos científicos, então?

NICOLELIS: Segundo minha teoria testada em laboratório, o cérebro é um grande modelador da realidade. Ele cria modelos da realidade ao longo do nosso desenvolvimento, e isso levamos para o resto da vida. Mas não foi definido ainda com grande precisão o que temos que oferecer — e em que momento da vida —, para otimizar esses modelos neuronais da realidade, do mundo, obtendo o máximo de retorno possível para a vida futura. Vamos poder fazer isso agora; definir isso com mais clareza.

Por exemplo?

NICOLELIS: Por exemplo, hoje muita gente fala que é benéfico o ensino de diferentes línguas às crianças. Mas isso precisa ser estudado com mais precisão. O quão benéfico é? Qual benefício causa, ou não causa, ao sistema nervoso? Isso só poderá ser decidido com evidências neurobiológicas. Outros exemplos são a atividade esportiva e a atividade social. Quais são os seus efeitos no sistema nervoso? Qual a melhor forma de uma mãe interagir com seu filho no berçário? Qual a melhor maneira de transmitir informações para as crianças?

As turmas precisam ser definidas pela idade? Elas poderiam ser determinadas pelo desenvolvimento do cérebro?

NICOLELIS: Essa é uma questão importante, estudada em diversos lugares do mundo: separar as turmas pelo desenvolvimento neurobiológico dos alunos. Na nossa escola de educação científica, não existe divisão por idade, as crianças são misturadas nos laboratórios. Nesse nosso projeto piloto, nos últimos cinco anos, é interessante notar que as mais velhas assumem um papel de liderança importante, ajudando os mais jovens.

Qual é a sua expectativa em relação a essas crianças?

NICOLELIS: A nossa experiência atual mostra que os alunos tem uma performance acadêmica melhor na escola pública, eles desenvolvem amor por aprender, por descobrir. Isso está permitindo que consigam entrar na universidade pública e sonhar em seguir outras carreiras nas quais antes nem pensavam. Era como se estivessem predestinados pelo lugar onde nasceram. Acho que vamos alterar dramaticamente o ensino oferecido a essas crianças e dar oportunidades que, agora, elas terão como aproveitar. Porque não adianta só ter a oportunidade; é preciso saber aproveitá-la. Vamos oferecer um mar cheio de peixes e diferentes varas de pescar.

Fonte: O Globo

Neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis desenvolve projeto para populações carentes do Nordeste (Foto: Miguel Alves / O Globo)
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