Energia que vem do lixo

Sistema de coleta e separação de resíduos desenvolvido em Israel reduz drasticamente a quantidade de restos despejados em aterros e transforma sujeira em biogás

Até pouco tempo atrás, Hiryia, o antigo depósito de lixo a céu aberto de Telavive, era sinônimo de problemas. Além dos pássaros que ameaçavam a operação do Aeroporto Internacional Ben-Gurion, a paisagem de quem chegava à metrópole de Israel era incômoda. Hoje, quem sobrevoa a região se depara com colinas verdes. A mudança radical tem nome: ArrowBio. O método de tratamento de resíduos sólidos municipais já é considerado o mais eficiente do mundo. Motivos não faltam. Além de compactar o lixo e transformá-lo em matéria-prima para reciclagem, a tecnologia consegue extrair energia do que antes era descartado. “O processo ArrowBio é uma solução integrada, que trata o ‘resto’ problemático do lixo e suas frações orgânicas, aumentando sua eficiência na forma de biogás por tonelada, enquanto supera os problemas de contaminação residual”, explica o israelense Yair Zadik, CEO da companhia Arrow Ecology and Engineering Overseas.

Segundo Zadik, os equipamentos do ArrowBio espalham os resíduos sólidos humanos brutos, permitindo que a grande maioria de materiais recicláveis — metais, plásticos, papelão, vidro e areia — seja reaproveitada. “Ao mesmo tempo, o método produz, de forma eficiente, a correção do solo limpo e energia verde, em forma de biogás”, comenta o empresário. Ao fim do processo, o lixo deixa de ser contaminante e não agride a natureza. “Além das vantagens ambientais associadas à ArrowBio, a tecnologia oferece custos de montagem substancialmente mais baixos, em comparação aos incineradores”, destaca o executivo. Ele sustenta que os custos operacionais também são potencialmente reduzidos.

Os 12 funcionários da planta de Hiryia processam, por dia, entre 150t e 200t de resíduos sólidos municipais. “São cerca de 3 mil toneladas por mês”, afirma Zadik. Ele revela que algumas empresas brasileiras visitaram Telavive e tiveram a oportunidade de conhecer o ArrowBio. “No Brasil, o lixo é altamente orgânico e úmido, sem separação nas residências. Então, nosso método pode ser excelente e gerará altas quantidades de biogás para energia”, prevê.

Tudo começa com a coleta do lixo pelos caminhões, que a todo instante descarregam em Hiryia. O que ocorre a seguir é a eliminação da dependência de uma seleção anterior por tipos de material. A primeira etapa do ArrowBio envolve uma preparação do lixo seco e um estágio de separação. Zadik explica que o processo se baseia no princípio de que a maior parte dos materiais orgânicos biodegradáveis são menores e, por isso, podem ser separados com o próprio líquido do lixo (chorume), por meio de um trommel, cilindro usado para separar materiais pelo tamanho. “Os elementos maiores passarão pelo equipamento, e eles contêm mais papelão, papel e plásticos, que podem ser separados mecânica e manualmente”, observa Zadik.

O segundo estágio compreende a preparação do lixo líquido. O ArrowBio parte do pressuposto de que os materiais inorgânicos, como metais e vidros, têm peso específico maior que o da água, enquanto os plásticos e os compostos orgânicos biodegradáveis são geralmente mais leves. Os componentes pesados que afundam são depois separados do “rio orgânico”, que inclui metais ferrosos e não ferrosos, vidro e materiais inertes. Esses materiais “viajam” pela linha de processamento para serem separados por técnicas quem incluem força magnética, redemoinhos e manuseio. O que sobra volta ao tanque de dissolução e passa a ser tratado como material leve.

Tratamento biológico

“O lixo orgânico leve é transportado em uma esteira até o trommel. Ali, recebe poderosas correntes de água que lavam o material. Os elementos menores entram em pequenos orifícios até uma unidade de esmagamento hídrico”, explica Zadik. Os objetos maiores passam por um ímã, que colhe os metais. Os plásticos são soprados por uma espécie de peneira de ar. O restante do lixo vai para um triturador áspero e depois segue para o esmagamento hídrico.

Pelo menos 70% da água utilizada no ArrowBio são retirados do próprio resíduo sólido. Na fase final, o material biodegradável é recebido por sistemas de filtragem. Areia, vidro quebrado e pequenos objetos de metal caem em um tanque de decantação. Os elementos maiores passam por uma peneira de ar e retornam para um segundo ciclo no sistema. A partir daí, o material remanescente é direcionado a um reator biológico e transformado em poderosos fertilizantes, água e biogás. De acordo com Yair Zadik, a planta transforma cada tonelada de lixo orgânico biodegradável em 120m³ de biogás, contendo entre 55% e 75% de metano.

Vantagens da tecnologia

» Envia apenas de 20% a 30% do lixo para o aterro
» Aumenta a reciclagem do lixo em 70%
» Pelo menos 70% da água utilizada é produto do próprio lixo
» Apresenta custos competitivos de tratamento dos resíduos
» Produz eletricidade renovável e fertilizantes de alta qualidade
» Oferece ganhos em créditos de carbono

Autor: Rodrigo Craveiro (Enviado Especial – O  repórter viajou a convite da Embaixada de Israel)

Fonte: Correio Braziliense

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