Devemos celebrar o agronegócio e compartilhar o fogo e a destruição das florestas?

O Brasil tropical chegou ao mês de setembro ardendo fogo para todo lado. Do centro-oeste à Amazônia, somando um total de 104 mil focos, no levantamento do INPE de janeiro até o dia 11. Muitos incêndios criminosos, como os que atingiram 110 áreas de conservação no país, incluindo o Parque Nacional do Xingu, o Parque Nacional do Araguaia e a Reserva Extrativista Chico Mendes. Nesse país, na hora em que a cotação da soja bate recorde, e uma saca de 60 kg é vendida a 32 a 33 dólares; a arroba do boi tem previsão de ultrapassar os RS100 em dezembro, o que significa R$l.700,00, por um boi de 17 arrobas, uma média nacional nos frigoríficos, a floresta queima como no século XIX.

O historiador carioca José Pádua relata em um livro chamado “Um sopro de destruição”, a tecnologia do machado e do tição para implantar uma agricultura ineficiente, baseada na escravidão. Queimava-se o mato e quando não produzia mais e as formigas tomavam conta, queimava-se novamente, em outra área. O próprio José Bonifácio, em um texto para a Assembleia Constituinte de 1823, fala que o Brasil poderia se nos transformar “paramos e desertos da Líbia em dois séculos”, se continuasse a queimar as florestas daquela forma.

-“Que respostas daremos aos nossos netos no Tribunal da Razão por crimes tão horrendos”, perguntava ele no discurso.

Uma declaração em setembro de 2012 reafirmada pelo coordenador de monitoramento de queimadas do INPE, Alberto Setzer:

-“Quando o mercado acelera o ritmo, com produtos como a soja sendo vendidos a preços considerados atrativos, os produtores sentem-se estimulados a aumentar as fronteiras agrícolas, E essa ação é feita basicamente a partir de queimadas”.

O agronegócio brasileiro, incluindo o complexo soja (farelo, grão e óleo), carnes, açúcar e etanol representa 36% das exportações brasileiros e chegou a US$ 88 bilhões em 2011. A soja atingiu US$ 21 bilhões. As previsões para 2012 apontam para uma produção de mais de 80 milhões de toneladas em quase 30 milhões de hectares. Os chineses, que compram US$ 10 bilhões, de soja principalmente. Os Estados Unidos, que deveriam produzir 83 milhões atravessam uma seca anual no Meio Oeste, que já derrubou as previsões de colheita do milho e jogaram os preços internacionais para cima.

Algumas analistas de mercado divulgaram uma quebra de 100 milhões de toneladas. O Departamento de Agricultura (USDA) baixou a estimativa de colheita em 14%, para 329 milhões de toneladas, com quebra de 46 milhões. O problema é que 40% desse total é dirigido à fabricação de etanol – cerca de 50 bilhões de litros – para garantir 10% na mistura com a gasolina.

O bushel (25kg) do milho custava dois dólares antes da mistura. Agora vale nove dólares. Os preços da ração subiram 35 a 40%, e no Brasil um litro de óleo, quer dizer, 900 ml, custa mais de R$8,00, no supermercado, praticamente o dobro do preço.

Enfim, a especulação está do jeito que o capitalismo esclerosado tem adotado desde a crise financeira de 2008. Nos índices futuros de commodities, como o CRB, as aposta subiram de US$67 bilhões para US$96 bilhões até julho. Entre as mercadorias cotadas em bolsas as agrícolas figuram em terceiro lugar em termos de apostas. Primeiro são as metálicas, que agora estão em baixa, mas abocanham cerca de US$110 bilhões, seguidas pelas energéticas, um pouco abaixo. A correlação entre os índices da Bolsa de N. York e o CRB estreitaram-se a partir de 2008. Era numa, pulou para mais de 90%, agora está em torno de 73%.

O problema do Brasil é que o agronegócio avança pela floresta, mesmo na região Norte, e no que resta do cerrado, agora no oeste da Bahia, sul do Piauí, no oeste do Maranhão e no Tocantins, área denominada de Mapitoba, e que já tem 3,3 milhões de hectares de soja, milho e algodão, contando apenas os três últimos. Prefeitos do oeste baiano, como as cidades de São Desidério, Luís Eduardo Magalhães e Cotegipe, divulgam aos quatro ventos que existem mais três milhões prontos para serem ocupados. Quer dizer, mais três milhões para derrubar.

Corumbá durante um mês, entre agosto e início de setembro, liderou o número de focos de queimadas, passando de mil. É o maior município do MS, mas tem um rebanho que no início da década passada estava em dois milhões de cabeças e agora deve ter duplicado. Os pantaneiros normalmente queimam seus pastos nativos, porque não são roçados e muito menos adubados. É a forma de limpá-los e, não sofrer com o fogo ocasional.

O segundo no ranking da tragédia da seca brasileira era justamente Cotegipe com 459 focos. Mas São Desidério registrava 257. O maior índice de queimada continua disparado nos municípios do Mato Grosso, por motivos óbvios: é onde o agronegócio mais avança. Mesmo área já convertidas em pastagens como São Felix do Araguaia com 382 focos na segunda semana de setembro, Campos Novos dos Parecis, área de influência dos Maggi, com 135 e Nova Mutum, no início da BR-163, a Cuiabá-Santarém, também com 135. Altamira queimava em 166 pontos e São Félix do Xingu em 152 pontos.

Somente no dia 10 de setembro o Cerrado contava 2.447 focos e a Amazônia 1.450. O Maranhão até o início de agosto já tinha quase seis mil focos, o Mato Grosso oito mil, Rondônia, que tem um dos menores índices de florestas, bateu recordes com mais de cinco mil focos.

No dia 10 de setembro anotei algumas manchetes de jornais: São Paulo veta queima de cana em 488 municípios. Ribeirão Preto batia recorde de temperatura acima de 30ºC e 17% de umidade. Registrados apagões no oeste baiano pela queima. Corumbá ficou um dia sem luz, telefone e internet. Sudeste do Pará com dezenas de queimadas ilegais. Queima de vegetação aumenta 80% no país (jornal Nacional). Reservas ambientais devastadas pelo fogo no país (Correio Braziliense). Grajaú, Maranhão: Ministério Público e população protestam contra queimadas.

Até 2006 morei em Campo Grande. O Mato Grosso do Sul não é mais área de expansão agrícola, com exceção do Pantanal, onde cada vez mais se implanta pastagem cultivada, por isso, a fumaça voltou a atingir a capital. Lógico, que os brasileiros, no geral, pela tradição cultura extrativista continuam queimando qualquer coisa, durante a seca. Desde terreno baldio, até o lixo do fundo do quintal. Mas esses são minúsculos casos. Na década de 1990, a primeira chuva, que dava como encerrado o ciclo da seca, chegava ao sete de setembro. Estava na boca do povo. Não chega mais. O fogo continuará principalmente nas áreas estratégicas para o cerrado – onde estão as nascentes dos principais rios do Brasil. O São Francisco depende dos afluentes que nascem no oeste de Minas Gerais e oeste da Bahia, justamente onde mais se desmatam. O biólogo Fábio Olmos, fez um retrato dos biomas brasileiros numa série sobre sustentabilidade dirigida pelo professor José Goldemberg, lançada recentemente. Sobre o cerrado ele escreveu:

– É o segundo maior bioma sul-americano, com área original de mais de dois milhões de km², além do Brasil inclui áreas do Paraguai, Bolívia e até o Peru. Nas estimativas do Ministério do Meio Ambiente, 48% das áreas originais foram perdidas até 2008, equivale às áreas do Mato Grosso e Santa Catarina reunidas. São Paulo só tem 2% da área original. Em 2007, as unidades de conservação representavam apenas 2,76%, porque as políticas de conservação se concentraram na Amazônia.”

O cerrado continua ele, “é a principal responsável pela produção hídrica de algumas das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras, como a do São Francisco, que abrange 47% da área, mas responde por 94% da água que por ela flui. Os municípios do oeste da Bahia, como São Desidério, Luís Eduardo Magalhães e Correntina, onde nascem os principais afluentes do São Francisco, são os que mais desmataram na área do bioma desde 2002”.

No caso da bacia do Araguaia-Tocantins, o cerrado abrange 78% de sua produção hídrica. E outros afluentes do rio Amazonas, como Guaporé, Juruena, Teles-Pires e Xingu têm nascentes situadas no cerrado e todos sofrem os impactos dos desmatamentos, para a expansão da agropecuária. Existem estudos de campo que mostram como as árvores e arbustos do cerrado bloqueiam a saída da água na estação seca.

– Em 1998, 49% da bacia do rio Tocantins havia sido convertida em áreas de plantio e pastagens, aumentando a descarga no referido rio em 24%… “A tendência coincide com o aumento das cheias em áreas como Marabá, enquanto os lençóis freáticos que alimentam a vazão dos afluentes se tornam cada vez mais depauperados, o que deve levar a perda de nascentes”, explica Fábio Olmos. Os estudos apontam também que a conversão do cerrado natural em pastagens reduz a precipitação em pelo menos 10%, os veranicos podem se tornar mais frequentes e a temperatura média do ar superficial pode aumentar em 0,5ºC, com grandes implicações para a agricultura e o fornecimento de água.

“Embora a porção mais vocal do agronegócio, finaliza o biólogo, despreze o cerrado, considerando-o mera área de expansão, é óbvio que essa visão é equivocada e a perda do cerrado representa a perda dos próprios sistemas climáticos e hidrológicos que sustentam às atividades econômicas”.

Em 1979, outros dois pesquisadores especializados na região, Robert Goodland e Mário G. Ferri, da USP, lançaram um perfil da ecologia do cerrado. Comentaram o lançamento do Plano de Desenvolvimento do Cerrado, chamado Polocentro – concedia benefícios fiscais, crédito e tudo o que fosse necessário -, para a instalação da agricultura e pecuária.

– A calagem, correção do solo com calcário, e a adubação intensiva podem tornar os cerrados produtivos. Se de um lado isto abriu nova fronteira agrícola, de outro vai colocar as áreas de cerrado em perigo de rápido desaparecimento… temos afirmado que um dos maiores méritos do programa Polocentro, foi desviar da Amazônia para o cerrado, ao menos em parte a exploração agropecuária. Melhor, pois, começar a exploração agropecuária no cerrado, onde os ecossistemas são menos frágeis que os da Amazônia. “Enquanto isso, podem se desenvolver pesquisas que nos ensinem como utilizar de modo racional a Amazônia, sem que ela venha a sofrer os mesmos riscos de hoje.”

E aí o Mato Grosso, onde grande parte da sua área é dominada por matas amazônicas se tornou o maior produtor de grãos do país, com mais de seis milhões de hectares ocupados- e quase 30 milhões de cabeças de gado – e com a expansão avançando em todas as áreas, recebendo migrantes do Sul, como se a ocupação do cerrado continuasse igual a da década de 1980. Cidades surgem em uma década. De Porto Alegre, a empresa rodoviária Ouro e Prata tem uma linha que terminava em Guarantã do Norte, no norte do Mato Grosso, e outra em direção ao Tocantins, via Primavera do Leste – essa uma cidade de gaúchos. Hoje a linha se estendeu até Santarém, o ponto final da BR-163, onde a Cargill instalou um graneleiro com capacidade para 1,2 milhão de toneladas. A linha é diária, e faz uma conexão com os imigrante, no norte do RS.

Eles continuam vendendo 10, 15, 20 hectares e trocando por 500 no meio da Amazônia. Mas acham que a visão e o planejamento do país é esse mesmo. Derruba a floresta e troca por soja e boi. É assim que o rebanho da região soma 40 milhões de cabeças, Os grileiros vão avançando nos 80 milhões de terras devolutas e o baile segue. Primeiro os madeireiros cortam as toras que mais valem, depois botam fogo. Jogam a semente de braquiária e está formado o pasto. Depois outro vende, limpa os troncos queimados e as raízes, e deixa a área pronta para a soja ou o algodão. Não tem nada de mata ciliar, reserva obrigatória. Fazem isso desde os governos militares e continuam.

Não interessa se a vazão da bacia do Amazonas-Tocantins corresponde a 18% da água doce jogada no Atlântico. Qual a influência de sete trilhões de toneladas de vapor de água no funcionamento do clima, que é o vapor de água que a floresta libera. O negócio, ou melhor, o agronegócio, explora oportunidades econômicas e não quer limites. Em Primavera do Leste, e no oeste baiano, eles plantam com irrigação com pivô central, podem irrigar uma área de até 150 hectares. Em 2006 visitei Primavera do Leste, na época tinha a maior concentração de pivôs do país. Alguns produtores faziam três ciclos, quer dizer, três plantios. E sempre de soja, sem intervalos. Até estourar a ferrugem asiática, um fungo que destrói a plantação. Chegaram a gastar R$1 bilhão em fungicidas. O fungo ataca pela umidade. E porque a exploração é intensiva demais. Depois disso, o governo do Mato Grosso decretou o vazio sanitário, obrigando a um intervalo de três meses, sem plantio.

Já é público e notório que o Brasil virou o campeão no uso de agrotóxicos. Entre os anos 2006 e 2012 as vendas de agrotóxicos cresceram 72%, passaram de 480,1 mil toneladas para 826,7 mil toneladas, segundo o Sindag, o sindicato das indústrias produtoras. No mesmo período a área cultivada com grãos, café e cana cresceu 18%, de 68,8 para 81,7 milhões de hectares. Por hectare as aplicações aumentaram de pouco mais de 7 kg em 2005 para 10,1kg, em 2011. O consumo que mais cresceu foram os fungicidas de 56 mil toneladas para 174 mil toneladas. Os herbicidas estão no topo da lista: cresceram de 279,2 para 403 mil toneladas. O faturamento das empresas dobrou, chegou a US$8,5 bi, no mesmo período.

A explicação de um executivo do setor: o problema era subdosagem. Ou então, agora os produtores tem mais renda, estão aplicando mais. Em Primavera do Leste, visitei um deles, Borghetti, parente do músico. Tinha estipulado um dia da semana só para atender vendedores de agrotóxicos. Porque antes, era todo dia, sempre com a mesma conversa: o produto mata tudo, resolve todos os problemas.

O Brasil, desde 2005, com a aprovação das sementes transgênicas, planta 30 milhões de hectares de soja. Agora também milho. A planta transgênica é imune ao glifosato, um herbicida vendido pela Monsanto junto com a soja Roundup Ready, cuja patente expira em 2014. Também é público e notório que algumas plantas tornaram-se resistentes ao glifosato, tais como capim amargoso, buva, corda de viola, trapoeraba e o próprio milho transgênico que nasce no meio da lavoura de soja. Nos Estados Unidos, o USDA calcula em 10 milhões de hectares da área infestada. O que acontece? Comprar outro herbicida. Um seletivo, que ataca somente algumas plantas. Veja o caso da indústria Arysta, vende um produto chamado Cletodim. O diretor da empresa, Flávio Prezzi esperava uma redução de 75% nas vendas, com a adoção da semente transgênica, porque o glifosato tomaria o mercado. Qual a surpresa dele de ver as vendas aumentarem de 400 mil litros em 2011 para um milhão. Espera vender três milhões de litros nos próximos anos.

César Borges de Sousa é o presidente da Associação Brasileira de Produtores de soja NÃO geneticamente modificada. Ele é um industrial e comanda a Caramuru Alimentos. Escreveu um artigo para o Valor recentemente. Comparou os custos de produção da convencional – R$1.187,60 por há e da transgênica –R$1.219,86. Contando mais a economia de royalties que não precisam pagar – R$47 milhões- cerca de R$32,20 por ha, tiveram uma renda adicional de R$235,3 milhões. Depois de enumerar vários argumentos, tais como a infestação, o custo de produção, a produtividade menor, no artigo intitulado “Mito Transgênico”, completou:

– A propalada redução na utilização de defensivos que a transgenia proporciona ao meio ambiente não passa de mais um mito. Não fosse o programa ‘soja livre’ da Embrapa, o produtor ficaria a mercê do monopólio da transgenia, fato que infelizmente pode estar ocorrendo no mercado do milho… uma questão de soberania nacional”.

Mas a Monsanto está contra atacando. Já lançou a semente Intacta RR2Pro, que contém mais um antídoto contra veneno, chamado de BT, de Bacilo Thurigiensis, na realidade um inseticida natural encontrado em um inseto. Vai cobrar R$115 por hectare de royalties, cerca de cinco vezes mais que o anterior. Interessante é a carta que a Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja), mandou para a Casa Civil, pedindo ao governo que intercedesse junto à embaixada daquele país no Brasil, para acelerar a aprovação dos “eventos transgênicos no Brasil”, também sejam adotadas pelo Ministério da Agricultura de lá. A Monsanto está embuchada com sementes suficientes para plantio de 500 mil hectares de soja, e faturaria R$47 milhões em royalties.

Então, por isso a pergunta: devemos celebrar o agronegócio e seu poder econômico e suas receitas, e compartilharmos do fogo, do veneno residual, da destruição das florestas e das nascentes dos principais biomas brasileiros, sem contar os hospitais lotados no interior, de gente que não aguenta mais respirar fumaça todo dia, sem contar os conflitos e as mortes no campo, fruto dessa expansão tecnológica e moderna. Só existe uma opção?

Fonte: Mercado Ético

Devemos celebrar o agronegócio e compartilhar o fogo e a destruição das florestas?

Devemos celebrar o agronegócio e compartilhar o fogo e a destruição das florestas?

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