Consumo consciente e divertido: game station pode colaborar com mudança de hábitos

Pode parecer complicado ter atitudes mais sustentáveis no dia a dia. Não é. É isso que mostra a plataforma Beehave, criada por Marcus Ghedini e Rafael Clemente. O Beehave é uma rede social, em formato de jogo, que compartilha experiências práticas de como é possível tornar os estilos de vida mais sustentáveis. E que mostra as vantagens de fazer isso, inclusive para o bolso.

Ao acessar o aplicativo, disponível hoje no Facebook, o usuário encontra uma série de práticas cotidianas que, se realizadas, contribuem para a redução de impactos negativos no ambiente. Cada atividade apresenta seu equivalente em emissões de gás carbônico e quanto em reais é possível economizar anualmente se realizadas com a frequência proposta pela ferramenta. De acordo com a sua prática cotidiana, o jogador escolhe atividades a realizar e atualiza o perfil na rede. Consegue visualizar então o quanto economizou financeiramente e o que o conjunto de mudanças de hábito representa em impacto ambiental.

O jogo ainda brinca com a competição saudável entre os participantes: é possível compartilhar nas redes sociais os resultados alcançados e fazer um ranking entre os amigos que estão jogando.

O Akatu entrevistou Marcus Ghedini, administrador e um dos criadores da ferramenta. Apresentada no Workshop Estilos Sustentáveis de Vida para o Futuro, organizado pelo Akatu e pelo Centro de Estudos em Produção e Consumo Sustentável (CSCP) do Instituto Wuppertal (Alemanha) com patrocínio da Nokia e da Deutsch Telecom, a plataforma foi concebida a partir dos princípios do consumo consciente e é uma das iniciativas apoiadas pela Innvent – Innovation & Venturing, incubadora de iniciativas pioneiras sediada no Rio de Janeiro. Segundo seu criador, “a mudança de hábito para o consumo consciente passa por pequenas atitudes cotidianas que, se repetidas por um longo período de tempo, têm impacto positivo individual. Nessa mesma linha, atitudes repetidas ao longo do tempo por um número cada vez maior de pessoas, trazem transformações coletivas. A internet nos ajuda nessa disseminação. Quanto mais gente, melhor”.

Confira os principais trechos da entrevista.

Instituto Akatu – O que é o Beehave e como ele funciona?

Marcus Ghedini - É uma plataforma social na internet de incentivo às práticas sustentáveis e o consumo consciente. O usuário cria um perfil na plataforma e, a partir disso,  tem a oportunidade de entrar em contato com centenas de atividades cotidianas que contribuem para um estilo de vida mais sustentável. A partir de dimensões da vida cotidiana, como casa, trabalho e transporte, o usuário pode se comprometer, por exemplo, com a atividade de escovar os dentes com a torneira sempre fechada ou de realizar vídeo conferências ao invés de se deslocar para uma reunião presencial. Ele tem acesso nesse momento a dados como: quanto ele reduz de impacto no meio ambiente, quanto economizou praticando essa atividade. O usuário se compromete com uma serie de atividades que ele escolhe e, quando realiza, volta à ferramenta e dá um check in nessa atividade. Aí ele acumula pontos.

Instituto Akatu - Mas se o jogador quiser roubar no jogo ele vai, não?

Marcus Ghedini - Sim. Mas a gente acredita que a plataforma se autorregula. Se estou jogando com meus amigos não faz sentido incluir no meu perfil do Beehave mudanças de comportamento que não estou praticando na minha vida cotidiana. A visibilidade na plataforma e a evidência que o usuário ganha no jogo quando vai subindo posições no ranking também cobra dele mais comprometimento. Você acaba não podendo dizer que está indo de bicicleta para o trabalho se você não estiver indo. A gente acredita que os participantes se autorregulem no sentido de desestimular esse tipo de prática. Até porque ainda não temos nenhum benefício físico ainda para quem se evidencia no jogo. Os usuários entram no jogo pelo jogo. E com esse tema, qual é a graça de ser o ganhador se eu não estou mudando de comportamento?

Instituto Akatu - Qual foi a motivação para criar a ferramenta?

Marcus Ghedini - Eu e o Rafael Clemente sentimos a falta de uma plataforma na web que concentrasse todos os esforços e iniciativas em sustentabilidade. Essa foi a inspiração para pensarmos em um ambiente que, de maneira eficaz, agregasse iniciativas e conversasse com a população em geral. Não só o público que já está sensibilizado para o tema da sustentabilidade e do consumo consciente. O nosso foco são as pessoas que ainda não estão pensando sobre consumo consciente, mudanças climáticas, aquecimento global… Muito já foi pensado e escrito sobre o tema. Nós queremos que ideias abordadas nos pactos e tratados internacionais pela sustentabilidade cheguem para a população, para as pessoas comuns, em ações concretas rotineiras. Como fazer com que as pessoas entendam do que estamos falando e achem possível mudar de atitude? É essencial fazer com que as pessoas encontrem sentido naquilo que estão se propondo a fazer. E fiquem incomodadas, por exemplo, com o fato de ter uma torneira vazando, ou uma luz acesa desnecessariamente. Na plataforma, conseguimos passar para as pessoas que cada atitude, quando mensurada e contabilizada coletivamente, faz sim uma grande diferença e é capaz de promover mudanças significativas.

Instituto Akatu - Por que um jogo e não uma lista de atividades seguidas do cálculo de impacto?

Marcus Ghedini - Uma lista de atividades com uma calculadora funciona muito bem para quem está antenado com o conceito da sustentabilidade, para quem já tem o tema em si e quer interagir. Mas pensando nas pessoas que ainda não foram sensibilizadas, não podemos partir do pressuposto que elas já acham esse assunto interessante e que vão querer entender sobre sustentabilidade ou praticar atos de consumo mais consciente. Isso é uma das críticas que eu faço ao nosso modelo de aproximação do grande público – partir do pressuposto que todo mundo gosta desse assunto. Temos que entender, respeitar isso, e pensar em formas de tornar o nosso recado mais leve, atrativo, sem perder o conteúdo.

Pensar em mudança de hábitos cotidianos usando o jogo eletrônico como ferramenta de interação com o público é um conceito que internacionalmente está fazendo muito sucesso. A gente percebeu que se o Beehave fosse só uma lista com práticas e técnicas acompanhadas de cálculos de impacto, as pessoas não usariam. Quando desenvolvemos o conteúdo nessa linguagem de jogo, que permite interatividade e comunicação, e as pessoas responderam positivamente, vimos que podia ser uma boa aposta.

Instituto Akatu - Como são feitos os cálculos de impacto utilizados na plataforma?

Marcus Ghedini - Usamos estimativas de consumo e preço de serviços e produtos no Brasil, determinadas pelo consumo médio da população ou reveladas por estudos acadêmicos e relatórios de centros de pesquisa em consumo. Deixamos essas indicações disponíveis na plataforma em cada atividade proposta. Para os fatores de conversão em emissões de gás carbônico, por exemplo, utilizamos os relatórios do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] e outras pesquisas disponíveis, sempre tentando aproximar os dados à realidade brasileira. A ideia é partir de dados já produzidos por instituições reconhecidas e transformá-los em conhecimento que possa ser vivenciado na prática – quantificando em emissões de gás carbônico, folhas papel, litros de água, enfim, tornando visível às pessoas o que elas estão deixando de consumir e o impacto disso.

Em longo prazo, queremos que o sistema de cálculo seja mais customizado para o usuário. Ou seja, hoje estipulamos que o deslocamento médio de uma pessoa de casa para o trabalho é de 10 km. Com a plataforma mais desenvolvida, queremos que as pessoas possam incluir suas informações a partir do dado real de vida de cada um e não tenham resultados a partir de estimativas.

Instituto Akatu - Em que fase o projeto está?

Marcus Ghedini - Lançamos o aplicativo para o Facebook e para o Iphone no fim de 2011. Estamos divulgando para as pessoas, mas sem nenhum esforço concentrado de lançamento, para que as pessoas experimentem e deem retorno para nós.

A ferramenta está em fase de teste e validação de conceito. Por isso queremos que as pessoas acessem, testem e enviem contribuições, sugestões, críticas, comentários, indiquem novas atividades e possam participar dessa construção colaborativamente. Queremos saber se o que estamos falando faz sentido, se é aplicável no Brasil, se tem aceitação, se o uso da métrica ajuda a mudar o comportamento das pessoas em favor do consumo consciente. Enfim, queremos fazer algo que tenha sentido para as pessoas comuns e embasado em dados técnicos verificáveis, aplicáveis ao Brasil. Então, neste momento, abrimos para teste. Já é possível ter resultados reais de impacto no meio ambiente e no bolso, mas, para seguir no desenvolvimento da ferramenta, precisamos passar por mais essa fase de validação. O feedback daqueles que usam é essencial neste momento.

Princípios do Beehave

1.    Cada pessoa possui um potencial único e poderoso de mudança
2.    Cada pessoa pode contribuir de alguma forma
3.    Pequenos gestos podem levar a grandes mudanças
4.    A interação entre as pessoas é uma das chaves para elas alcançarem objetivos ainda maiores
5.    Fomentar competições saudáveis ajuda nossos usuários a obterem resultados mais expressivos
6.    Expressar ações em números ajuda na tomada de decisões e mudança de comportamento
7.    Concentrar todas as informações possíveis sobre sustentabilidade ajuda as pessoas a entenderem em que elas podem aprimorar o uso racional de recursos

Saiba mais:
http://www.beehave.com.br/

Fonte: Instituto Akatu

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