Conhecer a matéria-prima da roupa e prolongar sua vida útil faz bem ao meio ambiente

Em tempos de pensar sobre atitudes de consumo consciente, neste exato momento – a menos que esteja nu – você está coberto de razões para refletir. Isso mesmo: até a roupa que lhe cobre o corpo pode fazer a diferença se, além da satisfação pessoal, você tiver uma pontinha de preocupação com a chamada sustentabilidade. Algumas etiquetas já trazem informações que permitem conferir se o pano em uso, além de fibras sintéticas e vegetais, tem por trás de sua produção atitudes que promovam bem-estar social e proteção ambiental. O setor têxtil já trabalha com tecidos feitos de fibra de garrafa PET reciclada, algodão orgânico, lona reutilizada e couro vegetal. Há pesquisas com palha de arroz, proteína de milho, e já existem roupas feitas de fibra de bambu, apesar de resultar de um processo químico que ainda gera controvérsias. Olhou nas etiquetas e não encontrou informação? Ponto negativo para o fabricante.

De acordo com Ana Cândida, diretora do Instituto Ecotece, um centro de estudos e desenvolvimento de práticas do vestir consciente, apesar do número crescente de pessoas preocupadas com a procedência do que consomem, esse mercado ainda se movimenta timidamente. “Não é fácil achar roupas feitas de tecidos ecologicamente corretos, os preços não são acessíveis e poucas empresas informam a história do produto ao consumidor.”

O tecido feito de poliéster de fibra PET, por exemplo, pode parecer estranho e dar a impressão de que pinica e é duro. Mas é macio e leve. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), 77 mil toneladas do plástico deixam de ser largadas anualmente no ambiente para virar matéria-prima de vestuário. Apesar disso, diante do pedido de uma camiseta feita desse tipo de poliéster, a reação mais comum dos vendedores é estranhar.

Hermes Contesino, da área de relações com o mercado da Abipet, afirma que a indústria têxtil já utiliza a fibra na produção de tecido há algum tempo, mas ainda alimenta preconceito quanto à qualidade dos produtos reciclados. “Nem é possível detectar a diferença entre o poliéster de PET e os outros, mas muitas empresas utilizam esse material e não divulgam.”

No dia-a-dia

Deolinda trabalha com reciclagem de PET e nunca tinha visto o produto final (Foto: Rodrigo Zanotto)

A economista Paula Florêncio Miadaira afirma que a preocupação com o que veste e o comércio justo estão no seu cotidiano. “Compro camisetas de fibra PET, apesar de ser uma ‘moda’ seletiva ainda. As roupas que não uso mais passo para outras pessoas, reformo, customizo. Participo de trocas de peças com amigas e familiares, o que também aumenta nosso laço afetivo. Acho importante mudar de atitude na hora de consumir para diminuir o impacto ao meio ambiente”, diz Paula, que presta atenção na origem dos produtos. “Tem de ter responsabilidade social. Procuro conhecer o que há por trás do que visto.”

É esse tipo de preocupação que mantém a renda de Deolinda Fonseca dos Santos, de 42 anos. Ela trabalha há seis anos na Uniciclagem, cooperativa de reciclagem em Araras (SP), e há oito faz coleta para sobreviver. Todos os meses 42 trabalhadores recolhem mais de 50 toneladas de material – 10% são PET, que são vendidos para a unidade do grupo italiano Mossi & Guisolfi (M&G) em Indaiatuba (SP). O grupo atua também nos Estados Unidos e no México. Fabrica resinas para embalagens e poliéster como principal atividade, mas já aproveita PET reciclado na produção da fibra Alya Eco.

Embalagens recolhidas pelas cooperativas são enviadas para a unidade de reciclagem da empresa, onde são separadas por cores e transformadas em flocos de poliéster e depois em fios. Só então virarão tecido e roupas. Deolinda diz nunca ter visto pronto o tecido feito com o plástico que recolhe: “Já ouvi falar disso e achei uma coisa muito boa, mas nem imagino como é”.

O designer gráfico Leonardo de Souza Santos, 28 anos, usa roupas que considera “corretas” quase todos os dias. Metade do seu guarda-roupa é de algodão orgânico, lona de caminhão, calças e camisetas de fibra PET, sapatos com borracha de pneu usado, calça de couro vegetal. “Os preços não são tão diferentes dos das roupas convencionais, mas se fossem iguais eu compraria mais. O problema é que há empresas que se aproveitam da ‘grife’ ecológica e colocam os preços lá em cima. Pesquiso e só compro quando acho o valor justo. Não estou preocupado em consumir mais, mas melhor, produtos que duram mais, são confortáveis e práticos.” Leonardo freqüenta a Ciclo Ambiental, loja no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro. Lá são vendidas roupas cujas matérias-primas podem ter passado pelas mãos da catadora Deolinda.

A proprietária, Isabele Delgado, afirma que hoje a reciclagem é uma necessidade. “Precisa haver uma reorganização internacional nesse sentido, porque descartamos muito mais do que processamos.” Ela acredita que já é possível consumir esse tipo de produto: “Uma camiseta custa em média R$ 30, preço que se paga nos magazines. A classe média consegue consumir; mas o catador que resgatou o material reciclado não”.

A informação muda hábitos

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92) foi um marco na discussão da responsabilidade socioambiental. Foi lá que a empresária carioca Bia Saldanha lançou o treetap, ou couro vegetal, à base do látex extraído das seringueiras nativas da floresta amazônica. Trata-se de um aprimoramento do artesanato que os seringueiros já faziam. O seringueiro que extrai látex em larga escala recebe dos fabricantes da borracha em torno de R$ 2 por quilo; na destinação para o couro vegetal, o ganho chega a R$ 16. “As matérias-primas ecológicas e com compromisso social estão germinando os primeiros brotos agora, mas há muitas barreiras. É preciso criar cadeias produtivas que ainda não existem, capacitar pessoas. Eu sei que esse caminho é difícil e caro. À medida que aumentar a escala, diminuirá o preço”, explica Bia.

Ganhar escala é a meta fixada por Eber Lopes Ferreira, que há quatro anos investe na Coexis, uma fábrica de jeans e malhas com algodão orgânico e corantes naturais que não geram resíduos poluentes. No ano passado desenvolveu produtos para as marcas Redley e Cantão e em 2008 tem projetos para Fórum, Siberian e TNG. “Trabalhamos com pequenos agricultores que cultivam algodão com certificação de orgânico. É nossa quarta safra. A procura tem aumentado, 3% das 300 mil peças convencionais são orgânicas. A meta é chegar a 10% neste ano e a 40% em cinco anos”, afirma.

Há quase dois anos, Alice Zompero participou, com mulheres de diferentes comunidades de Santo André (SP), de oficinas no Instituto Ecotece. A entidade promoveu atividades para difundir a prática do vestir consciente e levar projetos empreendedores para fora das grandes empresas e marcas. “Trabalho há 20 anos como costureira e não sabia que muita gente morria por causa do agrotóxico do algodão. Hoje eu vejo uma malha e procuro sua origem, aprendi que é importante”, afirma. Alice já confeccionava peças de roupa à base de retalhos e fazia brinquedos com PET. “Mas não imaginava que servia para vestir.” Também customiza roupas usadas, reforma e muda completamente o visual. “É um jeito de consumir menos sem deixar de usar coisas bonitas”, explica.

Alice recebe encomendas de empresas, lojas e conhecidos. Sempre indica o tecido de poliéster reciclado. “Procuro passar o orçamento do tecido menos prejudicial ao meio ambiente. E os clientes acabam, quase sempre, gostando. Só de pensar que milhares de garrafas deixarão de entupir os bueiros já é o máximo.” E Dona Deolinda agradece: “A sociedade tem de perceber a importância disso para o meio ambiente e para a geração de empregos, como o meu.”

Autor: Xandra Stefanel

Fonte: Revista do Brasil

Disponível: Mercado Ético

Paula: "As roupas que não uso mais passo para outras pessoas, reformo, customizo" (Foto: Mauricio Morais)

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