Cinema e sustentabilidade: provocações para o consumidor consciente

Segundo o relatório “Estado do Mundo-2010”, do Worldwatch Institute, publicado em português pelo Instituto Akatu, apenas uma pequena minoria de 16% da humanidade é responsável por 78% do total do consumo no mundo. Isso significa que pouco mais de um bilhão dos sete bilhões de habitantes do planeta se apropriam de quase quatro quintos do total do consumo, enquanto que os restantes seis bilhões de pessoas se apropriam de apenas um quinto deste total.

Além de social e economicamente injusto, esse quadro aponta que, se toda a população do planeta adotasse o padrão de produção e consumo daquela minoria de 16% da humanidade, precisaríamos de cerca de cinco planetas para suprir essa demanda. Não é preciso dizer que isso é uma impossibilidade prática, pois só temos um planeta!!! No entanto, para que uma mudança significativa no padrão de consumo seja possível, é preciso que as pessoas tenham maior consciência sobre os impactos de seu consumo individual e coletivamente.

Quatro filmes da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental contribuem para a ampliação de consciência das pessoas sobre os impactos de seu consumo.

O filme The Light Bulb Conspiracy (2009), de Cosima Dannoritzer, aborda a questão da obsolescência programada, ou seja, de como os produtos muitas vezes são feitos para durarem menos do que o tecnologicamente possível de modo a  rapidamente serem substituídos por um novo. Trata de uma reflexão importante, do ponto de vista da sustentabilidade, sobre as práticas empresariais na sociedade capitalista contemporânea, que contribuem para o quadro de insustentabilidade da vida no planeta. Adicionalmente, traz uma discussão extremamente relevante sobre as práticas cotidianas de consumo, apontando a necessidade de uma mudança no modelo atual de consumo na direção de substituir produtos de obsolescência rápida por produtos duráveis.

Claramente, isto contribuiria para a sustentabilidade, dado que o bem estar gerado pelos produtos seria conseguido por meio de um uso mais eficiente dos recursos naturais.  Itens duráveis podem ser usados muitas vezes e, ao longo da sua vida útil, podem ser consertados, reformados, modernizados, e podem receber upgrades tecnológicos, sempre buscando preservar uma boa parte do produto para uso pelo maior período de tempo possível. Com isso, diluem-se, ao longo do tempo, os impactos causados em seu processo de produção e distribuição. E, naturalmente, reduze-se a necessidade de extração de recursos naturais e uso de energia e de água para atender à mesma necessidade ou função e, portanto, ao mesmo bem estar do consumidor.

É essencial neste processo o foco no bem-estar obtido pelo desempenho do produto, gerando uma maior satisfação do consumidor com aquilo que já tem e reduzindo a ansiedade em comprar um produto novo. Desta forma, dá-se ao produto o status de instrumento de bem-estar e evita-se que o consumo se torne um fim em si mesmo. Como benefício adicional, evita-se o descarte excessivo de lixo, que é especialmente importante, dada a dificuldade de acomodar um volume de resíduos que não para de crescer. Necessariamente, uma sociedade mais sustentável terá que olhar nessa direção.

Os problemas ligados à cultura do descartável também aparecem no filme Bag It! (2009), de Suzan Beraza, que traz à tona a discussão sobre as sacolas plásticas e a dificuldade em aboli-las de nossas vidas. Mais do que apenas discutir alternativas às sacolinhas, tão debatidas ultimamente, o filme vai atrás da sua história – como são produzidas, utilizadas e descartadas –, mostrando o que de fato pode auxiliar uma escolha mais consciente: conhecer, nos produtos que consumimos, os impactos causados ao indivíduo, à sociedade, à economia e ao meio ambiente ao longo de suas histórias. Ao conhecer tais impactos, criam-se melhores condições para escolhas mais informadas na compra, no uso e no descarte dos produtos, levando a escolhas com base na diminuição dos impactos negativos e aumento dos impactos positivos.

O filme Food, Inc. (2008), de Robert Kenner, vai atrás justamente da história dos alimentos industrializados consumidos pelos norte-americanos, buscando relacioná-la a alguns dos principais problemas de saúde pública vividos pelos Estados Unidos atualmente. O filme denuncia os impactos negativos dos processos produtivos e a omissão das agências reguladoras em relação a alguns desses impactos.

Aponta também para outra discussão: como o consumidor se relaciona com a sua comida? Ele conhece a origem dos alimentos? Leva este atributo em consideração nas suas escolhas cotidianas? A sociedade certamente seria mais sustentável se os consumidores conhecessem a origem dos alimentos, seus processos produtivos, os impactos destes processos e fizessem suas escolhas com base nestes impactos.

O filme identifica alguns dos impactos mais graves, inclusive sobre a saúde do consumidor. Faz pensar se aqueles que têm conhecimento de tais impactos – como é o caso dos executivos e funcionários das empresas produtoras – consomem os próprios produtos e os oferecem a seus filhos e netos…

Já o filme O Veneno Está na Mesa (2011), de Silvio Tendler, que também discute a produção de alimentos, concentra-se no caso brasileiro. Aborda a questão dos agrotóxicos e, com ela, traz a complexidade da escolha que um consumidor mais consciente tem que fazer nos dias atuais. Certamente um modelo de consumo mais sustentável é baseado na utilização de matérias-primas e insumos não tóxicos ao invés de matérias-primas e insumos tóxicos. Mas, no caso dos agrotóxicos, quem julga a toxicidade e como garantir que este julgamento seja isento? E como garantir a produção e distribuição de alimentos na escala necessária para toda a população do mundo, hoje em sete bilhões, sem o uso de defensivos agrícolas?

Não se pode esquecer que, mesmo os produtos orgânicos, se tiverem uma produção mal manejada, poderão causar problemas sérios à saúde do consumidor, como ocorreu recentemente na Europa. Além disso, existem dúvidas sobre a possibilidade de produção orgânica em escala suficiente para alimentar toda a humanidade, embora já existam algumas indicações de que isso é possível. De outro lado, as empresas químicas vêm também fazendo esforços para reduzir o impacto tóxico de seus produtos, além de preocuparem-se em garantir um manejo correto dos mesmos, de modo a não causarem um excesso de impactos negativos à saúde do consumidor e do trabalhador no campo.

A provocação colocada pelos quatro filmes é quanto ao papel das pessoas comuns, consumidoras, na transformação destas realidades. O consumidor mais consciente pode reavaliar seus hábitos cotidianos e suas necessidades de consumo e pode alterar a sua forma de compra, uso e descarte dos produtos adquiridos.

Os quatro filmes aqui mencionados têm um papel da maior importância ao denunciar problemas, alguns deles da maior gravidade, em relação aos alimentos e embalagens. Que sirvam de mobilização para que as empresas mudem as suas práticas; para que os governos atuem mais fortemente na regulamentação e fiscalização, no desenvolvimento de políticas públicas e aprimoramento da legislação; para que as organizações sociais pressionem os governos nessa direção e, ao mesmo tempo, colaborem na conscientização do consumidor e na transparência das informações disponíveis para que as escolhas de consumo possam ser as melhores possíveis; e para que o consumidor tome consciência da complexa realidade e se envolva, diretamente, para pressionar empresas e governos a trabalhar com as organizações da sociedade civil na direção de uma transparência crescente quanto aos impactos individuais, sociais e ambientais dos produtos disponibilizados no mercado.

Finalmente, mas não menos importante, que as escolas utilizem esses filmes para provocar o debate dos temas neles contidos, incorporando nas diversas matérias do currículo escolar, especialmente no ensino fundamental II e no ensino médio, os elementos de consumo consciente e de sustentabilidade que transformem o estudante de hoje no consumidor consciente do futuro.

Helio Mattar é doutor em Engenharia Industrial pela Universidade de Stanford (EUA), idealizador, cofundador e diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente. Foi cofundador do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, e atualmente é membro do conselho da organização.

Texto originalmente publicado no catálogo de filmes da 1ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

Acesse o site para saber mais sobre os filmes.

Fonte: Instituto Akatu

Análise de filmes sobre consumo da 1ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental

Análise de filmes sobre consumo da 1ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental

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