Chegada do homem é apontada como principal causa de extinções e mudança na paisagem na Austrália

As mudanças climáticas podem ser responsáveis por diversas alterações ambientais em muitas partes do mundo, mas não causaram a extinção da megafauna australiana e a transformação da vegetação local de floresta para savana, como muitos cientistas argumentavam. Pelo menos é o que sugere um novo estudo publicado na última sexta-feira (23) na revista Science. Segundo a pesquisa, foi a chegada do homem no território que causou essas alterações.

Para chegar a essa conclusão, cientistas da Universidade da Tasmânia analisaram o Sporormiella, um fungo que depende do esterco de grandes herbívoros para sobreviver. Os pesquisadores perceberam que até cerca de 41 mil anos atrás, a frequência do fungo era grande, indicando que também havia muitos grandes herbívoros no local.

No entanto, a partir desse período, a incidência do fundo reduziu-se a quase zero, o que aponta para uma diminuição drástica na megafauna australiana. O estudo revelou também que esta extinção coincidiu com a chegada de seres humanos no continente, o que sugere que essa redução pode ter sido causada pelo homem.

E embora os cientistas tenham encontrado nos sedimentos de onde retiraram o Sporormiella evidências de que ocorreram alterações climáticas, elas indicam que essas mudanças ocorreram antes da diminuição da megafauna, o que, segundo eles, descarta a hipótese de que essas alterações tenham ocasionado a extinção.

“[A megafauna] era insensível a episódios de seca climática antes de diminuir abruptamente durante um período de clima estável”, comentaram os pesquisadores. “As pessoas caçaram [os animais] em grandes números e os tornaram extintos”, completou Chris Johnson, um dos autores da pesquisa.

“Essa é a mensagem para o mundo: quando humanos chegam a uma paisagem em um novo país, eles colocam uma enorme pressão nos animais mais pesados do que 10 kg e muitos deles são extintos”, concordou Matt McGlone, do instituto de pesquisa do governo neozelandês Landcare, que não fez parte da pesquisa.

“Pode ter levado pouco tempo ou muito tempo na Austrália, mas aconteceu e teria acontecido sem qualquer outra intervenção como clima, doenças, incêndios, o que quer que fosse”, acrescentou McGlone.

E com a redução da megafauna, é possível que o ser humano tenha contribuído indiretamente para a modificação da paisagem australiana. “Grandes herbívoros têm um efeitos fortes nos ecossistemas, mantendo a abertura e a fragmentação da vegetação, removendo material que de outra forma abasteceria incêndios, dispersando sementes, e mexendo no solo e reciclando nutrientes”, observaram os pesquisadores.

“Portanto, a extinção da megafauna pode ter causado grandes mudanças na vegetação e no funcionamento do ecossistema”, acrescentaram. Hoje, a vegetação australiana é formada basicamente por savanas, e análises mostram que, no período em que havia maiores quantidades de grandes animais, a vegetação era composta também por florestas tropicais.

Mas longe de ter gerado um consenso sobre o assunto, o novo relatório continua alimentando controvérsias sobre as teorias de extinção dos grandes animais e da mudança da paisagem, já que alguns cientistas afirmam que não há provas suficientes para colocar um ponto final no tema.

“Não encontramos a prova concreta. Uma combinação de fatores pode estar envolvida, com as mudanças climáticas enfraquecendo os animais e os tornando mais suscetíveis à extinção”, alegou Matt Cupper, especialista em datação de carbono, da Universidade de Melbourne.

E mesmo alguns dos pesquisadores, que concordam com parte da teoria, apontam alternativas para alguns pontos. McGlone, por exemplo, concorda com a causa da extinção da megafauna, mas crê que a mudança ocorrida na vegetação tenha outra origem. “Acho que foram incêndios humanos”, sugeriu.

Autor: Jéssica Lipinski   –   Fonte: Instituto CarbonoBrasil/Agências Internacionais

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