Acordos de energia renovável batem recorde em 2011

Relatórios da PwC indicam que valores de fusões e aquisições no setor de energia limpa subiram 40% no último ano, mas que instabilidade e escassez no fornecimento de terras raras no mercado podem prejudicar a indústria em 2012

A extensão da crise financeira mundial pode continuar atrapalhando o setor renovável em 2012, mas as empresas devem continuar tendo confiança nesse mercado. É o que sugere um novo relatórioda firma de consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), que analisou acordos no mercado mundial de energia limpa em 2011 e prevê o cenário para este ano. Mas outro documento da PwC adverte: as incertezas e a falta de terras raras no mercado poderão prejudicar a indústria em 2012.

De acordo com o primeiro relatório citado, o valor dos acordos de energia renovável subiu de US$ 38,2 bilhões em 2010 para US$ 53,5 bilhões em 2011, um aumento de 40%. E embora historicamente a energia hidrelétrica dominasse o mercado de fusões e aquisições renováveis, acordos que valem mais de US$ 1 bilhão em energia solar, eólica, de biomassa e eficiência energética passaram a uma razão de sete para um em relação à energia hidrelétrica.

Dentre as fusões e aquisições renováveis, as de energia solar e eficiência energética corresponderam a 79% do crescimento de US$ 15,3 bilhões. A cada três acordos, um foi de energia solar e o valor das fusões e aquisições solares subiu de US$ 10,2 bilhões em 2010 para US$ 15,8 bilhões em 2011, um aumento de 56%.

O maior acordo renovável de 2011 foi a aquisição da companhia brasileira ERSA Energias Renováveis pela também brasileira CPFL Energia S.A., avaliada em US$ 2,9 bilhões. Embora a transação tenha sido classificada como um acordo hidrelétrico, incluiu 30% de ativos de energia eólica em seu portfólio operacional.

“O grande número de acordos e o recorde no valor total refletem um amadurecimento do setor. A tendência é ainda mais notável dada a incerteza no mercado e nas políticas governamentais sobre renováveis. Acreditamos que o fluxo de acordos continuará a ser significante em médio prazo”, comentou Paul Nillesen, do grupo de renováveis da PwC.

Segundo o documento, a consultoria acredita que o mercado eólico começará a se consolidar em 2012, enquanto um número crescente de fundos de pensão e de seguros começará a investir em projetos. “Da mesma forma que esperamos ver um número menor de atores globais no mercado solar, a consolidação entre atores maiores também deve ocorrer no setor de energia eólica.”

Outra tendência conjeturada pelo relatório é a de que empresas da Ásia e do Pacífico devem comprar ativos de energias renováveis e tecnologias limpas ocidentais. “A extensão da combinação entre entidades da Ásia e do Pacífico, da Europa e da América do Norte existe e 2012 pode ser o ano em que isso ocorrerá”, observa a análise.

“A fraqueza das companhias europeias está coincidindo com o movimento do governo chinês de limitar o número de fornecedores de turbina do continente, causando uma desaceleração temporária dos projetos na China e aumentando o apetite dos produtores chineses de turbina pelos mercados estrangeiros”, acrescenta.

No entanto, o mercado de renováveis não verá apenas boas notícias em 2012. Outra análise da PwC revela que a escassez de terras-raras pode prejudicar a indústria renovável nos próximos anos. As terras-raras são um grupo de 17 elementos químicos que são utilizados principalmente para em aplicações tecnológicas, dentre as quais se incluiu a fabricação de turbinas eólicas, painéis solares, baterias de carros elétricos e lâmpadas eficientes.

Na verdade, este segundo relatório mostra que essa ameaça já está presente no mercado de energias limpas: em 2011, a falta de oferta de terras-raras fez os preços desses minerais saltarem, aumentando cerca de dez vezes em relação aos níveis de 2010 antes de caírem novamente.

Em uma pesquisa feita com alguns dos maiores produtores de energia limpa, 78% afirmaram que já estavam sofrendo com a instabilidade no fornecimento dessas matérias-primas, e a maioria declarou que não espera que a escassez diminua pelo menos nos próximos cinco anos. Isso porque atualmente 95% das terras-raras utilizadas na indústria vêm da China, que recentemente reduziu suas cotas de exportação desses materiais.

De acordo com esse documento, a escassez desses minerais poderá afetar as cadeias de suprimento da indústria renovável, o que pode consequentemente prejudicar as metas de redução de emissões de dióxido de carbono.

“O setor de energia pode enfrentar problemas muito grandes se o mundo se voltar [para as renováveis] grandemente. Em curto prazo, haverá grandes problemas de fornecimento. A disponibilidade desses metais definirá o crescimento desses setores da indústria. Até agora não há muitas alternativas”, alertou Rob Mathlener, um dos autores da análise.

E a situação poderá se agravar, uma vez que para abrir novos campos de mineração desses materiais, os países podem levar até 10 anos, e a demanda das terras-raras só tende a crescer. Segundo um documento  publicado pelo Congresso norte-americano em setembro do ano passado, a procura mundial por esses elementos é atualmente de 136 mil toneladas por ano, enquanto a produção é de cerca de 133,6 mil toneladas. Até 2015, a demanda mundial deve chegar a 185 mil toneladas.

“É uma bomba-relógio. Muitas empresas agora reconhecem que estamos vivendo acima das condições do planeta. Se essas indústrias, cadeias de suprimento e economias forem interrompidas pela escassez de oferta, então o estilo de vida do ‘luxo da escolha’, a que a maioria do mundo ocidental está acostumada, também será afetado”, lembrou Malcolm Preston, líder de sustentabilidade da PwC.

Mas mesmo com essas instabilidades, o primeiro relatório da PwC sugere que sair do mercado não é a melhor alternativa para superar as dificuldades futuras, e que o fluxo de acordos renováveis, principalmente dos de grande porte, deve continuar significativo.

“Ficar fora dos mercados na esperança de que as coisas melhorem não pode ser visto como a estratégia certa. O potencial para mais desestabilização do mercado interno ou em nível intergovernamental não pode ser descartado, mas se um acordo é altamente estratégico, e a missão é essencial, então as partes sentirão que vale a pena”, concluiu Nillesen.

Fonte: Instituto Carbono Brasil

 

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