A vida nos extremos

A fúria das águas do Solimões destruiu a casa da pescadora Donatela, moradora de Careiro da Várzea, nos arredores de Manaus, na Região Norte do país. A vizinha Flavia, perdeu, além da casa, o sogro, de infarto, durante as enchentes. Tudo o que as duas ribeirinhas tinham foi levado pelas águas de uma hora para outra. Restaram somente as roupas do corpo e alguns móveis, salvos no improviso. A 4 mil quilômetros dali, mulheres do sertão nordestino sofriam com um fenômeno natural oposto e igualmente arrasador: a seca. A agricultora Cida diz que voltou a ser assombrada pelo grande fantasma das estiagens extremas: a fome, que já conhecia muito bem. As frutas de seu sítio estorricaram no pé antes mesmo de amadurecer. As mudas de milho e feijão morreram. O gado está raquítico. No entanto, a sertaneja Ana diz que, para ela, o maior problema da seca é a solidão, pois os homens vão embora em busca de trabalho e algum dinheiro.

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Contraste: açude em Sertânia, em Pernambuco, 26 metros abaixo do nível normal. Ao lado, casa alagada nas margens do rio Solimões, no Amazonas

Donatela, Flavia, Cida e Ana, assim como milhares de brasileiros, foram vítimas de fenômenos climáticos inéditos no país em escala de violência. Nunca os rios da Amazônia estiveram tão cheios como em 2012. Cerca de 200 mil famílias foram afetadas pelas enchentes da bacia do Amazonas. O Nordeste registrou índices históricos de falta de chuvas. Cerca de 1,2 mil municípios ficaram em estado de alerta. Os especialistas acreditam que isso deve ser consequência dos impactos ambientais provocados pelo homem e estão intrigados não apenas com a intensidade dos fenômenos mas também com o fato de terem acontecido ao mesmo tempo. “A única relação que conhecemos entre os eventos é que ambos são fruto do aquecimento global. Essas populações mais atingidas são somente as primeiras vítimas, mas todos nós sofreremos com ele”, diz José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), que é coordenador de um estudo sobre o tema.

Conheça a seguir a história dessas quatro mulheres e de suas famílias. Elas enfrentaram medo, tristeza, privação, desespero, saudade. Mas não perderam a esperança e, apesar de tudo, a fé no futuro.

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“Peço que Deus me dê a mesma força que o rio teve” Donatela, que foi registrada Lucileine Oliveira do Nascimento, 51 anos, pescadora de Careiro da Várzea (AM)

“Fui deitar às 10h30. Chovia demais. Minha filha Viviane, de 10 anos, e meu marido estavam dormindo. O barulho do banzeiro (como os ribeirinhos chamam a marola do rio) era alto, mas dormi. Acordei de madrugada com um estrondo. A janela da sala quebrou com a força de uma onda. A menina acordou chorando. Outra onda quebrou o assoalho e as paredes. O teto desabou na nossa frente. Achei que a casa ia afundar e que a gente ia morrer lá dentro. Não tinha pra onde fugir. A água invadiu. Só o quarto não caiu. Comecei a rezar. Pedia pra Deus acabar com aquilo. A menina chorava e eu dizia pra ter calma. Ficamos agarradinhas. Ouvi minha irmã, que é vizinha, gritar pedindo socorro. A casa caiu inteira e ela ficou presa. Sozinha. Meu marido foi de canoa e conseguiu tirar. Ninguém dormiu naquela noite. Arrastamos fogão e geladeira pro quarto e ficamos num canto olhando, esperando a tempestade passar. Quando começou a amanhecer, colocamos eletrodomésticos na canoa e seguimos pra terra firme.

Ficamos três dias na casa da filha mais velha. Nunca vivi uma tragédia dessas. Muita gente perdeu tudo. No dia seguinte, com as águas mais calmas, fomos pra casa de barco. Eu e meu marido amarramos umas cordas nela e prendemos nas árvores pra evitar que descesse o rio. Na casa da minha filha, estava muito apertado e, até o rio baixar, fomos pra um acampamento em uma balsa que o vereador arrumou. Como era de ferro, esquentava muito de dia. Não dava pra andar descalço, o pé queimava. Ficamos eu, a menina e meu marido numa barraca só da gente. Foi a primeira noite que dormi inteira depois de muitos dias. Em casa, o barulho do banzeiro me acordava de madrugada. As crianças foram as que mais gostaram do abrigo na balsa. Lá podiam correr. Em casa, não tinham pra onde ir. Estavam ilhadas e sem aula – a escola alagou. Foram 40 dias. Nesse tempo, minha casa encheu mais de água, mais tábuas caíram e o teto desabou quase todo. Voltamos pra lá porque não tinha outro lugar pra ir. Agora, sala, cozinha e quarto ficam no mesmo cômodo. Vamos ter que construir outra casinha. Peço que Deus me dê a mesma força que o rio teve. Quando chove forte, minha filha se apavora. Digo a ela que vai ficar tudo bem, mas, no fundo, continuo com medo. A gente precisa sair logo daqui.”

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“Não tenho vontade de sair de casa, às vezes nem da cama” Maria Aparecida Amaral, 29 anos, agricultora de Sertânia (PE)

Todos os dias eu peço pro meu marido pra ir embora daqui. Queria morar na cidade, arrumar um emprego, dar um futuro melhor pros meus filhos. Mas ele não quer. Diz que não vai pagar aluguel. A gente se conheceu no sertão, no campo, perto daqui. Casamos quando eu tinha 13 anos e logo tivemos a primeira filha. Mudamos pra esse sítio onde vivemos há cinco anos. Foi a primeira vez que a gente teve uma terra nossa. Tudo o que a gente come planta aqui. Mas, como este ano não choveu, o milho e o feijão morreram. As frutas estorricaram no pé antes de vingar. Vendi duas das nossas três cabras. Ainda temos uma vaca e um bezerro, que estão magros. Está cada dia mais difícil encontrar comida pra eles. O mandacaru, que serve de alimento pros animais, está acabando. De dois em dois dias, vou até o açude de carro de jega (carroça puxada por jegue) e encho uma tina de água pra fazer ração e matar a sede dos bichos. A água de lá é marrom, só serve pros bichos mesmo. E o açude, que abastece as casas, está secando.

Trabalho na roça e, nos últimos meses, estou parada. De vez em quando, meu marido arruma uns bicos de construir cisternas aqui na região. A gente também recebe ajuda do governo. Mas, se a seca continuar do jeito que está, vamos ter que usar todo o nosso dinheiro pra pagar o caminhão-pipa pra abastecer nossa cisterna. Um caminhão com 14 mil litros custa 200 reais. Uso a água da cisterna (em geral, recolhida da chuva) pra beber e cozinhar. Mas ela também está acabando. Não lavo mais roupa nem passo pano no chão. Esterilizo antes de beber, mas acho que foi por causa dela que meu filho, de 1 ano, teve diarreia e febre. Ficou uma semana ruim, até que eu comecei a dar só leite de vaca pra ele. Minhas quatro filhas não tiveram nenhum problema por causa da falta de água. Elas almoçam na escola. Quem mais sofre com essa situação sou eu. Fico muito preocupada. Esta seca parece pior que a de 1993. Naquela, eu passei fome com meus irmãos. Choro, não tenho vontade de sair de casa, às vezes nem de levantar da cama. Este lugar não dá futuro. À noite, durmo mal pensando se vai faltar o que dar de comer pros meus filhos.”

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“Fecho os olhos e lembro da destruição, mas vai passar” Flavia Sales de Oliveira, 35 anos, pescadora de Careiro da Várzea (AM)

“Já diziam que a cheia ia ser recorde. Então, antes de alagar a nossa casa, a gente subiu o piso duas vezes. O assoalho ficou tão alto que eu só conseguia andar de cócoras lá dentro. Mas o rio encheu mais do que a gente esperava e a casa balançava como um barco. Toda minha família mora pertinho e passou pela mesma situação. Eu estava no centro da cidade, encontrei um vizinho e ele disse que o rio tinha destruído minha casa. Corri pra canoa, fiquei preocupada. Quando fui chegando, vi que tinha perdido tudo. Deu desespero. Não sabia se alguém tinha se machucado: meu marido, quatro filhos e meu neto, que não sabe nadar. Comecei a chorar. É muito triste você ver tudo o que tem destruído. Meu marido estava tirando as tábuas da parede e do chão pra deixar a água passar. Meu neto, de 2 anos, estava com a testa roxa, chorando no colo da minha filha. Quando a casa caiu, ele foi junto. Por sorte, meu marido viu e pulou na água atrás do menino. Não conseguimos recolher muita coisa. Pegamos as roupas, a televisão… Eu e minha filha ficamos abrigadas na balsa. Meu marido, em um barco que a gente tem ancorado.

A casa da minha filha, a da minha cunhada e a da minha sogra também alagaram. Foram para o flutuante do meu sogro. Ele ficou bem nervoso. Um dia depois de deixar a própria casa, teve um infarto. A gente acha que ele morreu foi de desgosto. Com a cidade embaixo d¿água, a gente pediu pra fazer o velório na balsa. O corpo foi enterrado do outro lado do rio.

Enquanto estava abrigada, visitava minha casa todo dia. Na balsa tinha muito barulho e nenhuma privacidade. E sentia falta de pescar – com a cheia, os peixes rarearam. Perdi a casa inteira. Pia da cozinha, louça, móveis, tudo foi por água. Depois de 40 dias abrigada, eu voltei. O rio já está três palmos abaixo do piso, mas as paredes estão quebradas. Quando chove, a gente se molha. Os curumins voltaram pra escola, mas a gente não tem dinheiro pro material. Vou precisar de mil reais pra refazer a casa. O auxílio do governo pros desabrigados foi de 400. Só vamos ter mais dinheiro quando os peixes voltarem. A casa ainda sacode com o vento. Aí fecho os olhos e lembro da destruição que vi. Uma hora isso vai passar.”

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“O maior problema que vejo na seca é a solidão” Ana Martins do Amaral, 49 anos, agricultora de Triunfo (PE)

“Nasci e cresci em Triunfo, neste mesmo pedaço de terra onde vivo hoje. Fiquei órfã de pai ainda criança e comecei a trabalhar na roça pra ajudar minha mãe. Sou acostumada com as secas, já passei muita necessidade. Fome mesmo. Casei cedo e tive dois meninos. Sempre gostei de ter meus filhos perto de mim. Quando eles eram pequenos, eu levava pra roça comigo. Limpava um pedaço do terreno embaixo de uma sombra, esticava um pano e deixava as crianças dormindo. Depois, quando terminava de roçar uma parte do terreno, limpava outra sombra e levava pra lá. Assim passava o dia todo, trabalhando na terra e levando os meninos comigo. Nunca fiz nada sem eles. Quando eram pequenos e a seca vinha brava, eu ficava com medo de não ter comida pra todo mundo. Graças a Deus, nunca faltou o que comer pra eles. Sempre tivemos só o básico pra viver, mas eu nunca me importei com isso.

Há dois anos, meu filho mais velho, Emerson, de 21 anos, foi embora de casa. A pior coisa que tem é uma mãe ficar longe de um filho. Ele foi morar em Palmas, no Tocantins, com minha irmã, pra fazer um curso e arrumar emprego. Eu entendo. Sabe como é jovem, né? Quer ter celular, roupa de marca. Aqui a gente não tem nem água pra ligar o chuveiro. Estamos tomando banho de bacia e só damos descarga no banheiro à noite, uma vez. O rio que beira nosso sítio secou. Não aguento de saudade do meu filho. Ligo todos os dias.

No começo do ano, quando tudo o que a gente plantou morreu, meu marido foi pra Santa Cruz do Capibaribe (a 296 quilômetros de Triunfo) trabalhar de pedreiro. Com esta seca, não tem o que fazer aqui no sertão. De lá, ele me manda um dinheirinho. Hoje eu vivo com meu caçula, o Erison, de 19 anos. Ele é muito inteligente, aprendeu a ler sozinho. Agora, está trabalhando em uma ONG, em Triunfo mesmo, e fazendo um curso de computação. Rezo todas as noites pra depois, no futuro, ele arrumar um bom emprego por aqui e ficar. Não tenho estudo nem o que fazer na cidade. Se ele for embora também, vou acabar sozinha, porque meu lugar é aqui. O maior problema que vejo na seca é a solidão.”

A BAGUNÇA DO CLIMA
O que mais preocupa os cientistas em relação aos fenômenos extremos que abalaram o país neste ano

Apesar de a seca nordestina e a cheia amazônica serem fenômenos naturais e recorrentes no Brasil, a intensidade e frequência com que elas aconteceram em 2012 mobilizaram os cientistas. O nível dos rios do Norte já tinha batido recorde em 2009, quando o Negro (que se une ao Solimões e forma o Amazonas) registrou 29,71 metros. Neste ano, chegou a 29,97 metros. “Cheias tão intensas são esperadas em um intervalo maior de tempo, como uma por século”, diz José Marengo, pesquisador do Inpe, em São José dos Campos (SP). Recentemente a região viveu, além das cheias, a situação oposta. Em 2003 e 2005, teve secas recordes. Mas o que mais chama a atenção é o fato de a seca do Nordeste e a enchente do Norte terem acontecido ao mesmo tempo.

As chuvas da Amazônia foram causadas pelo conhecido fenômeno La Niña. Com o esfriamento do Pacífico na região do Equador, as condições de pressão atmosférica da floresta ficam alteradas, aumentando a quantidade de precipitações no Norte. Nos anos de La Niña, o Nordeste também costuma ser beneficiado com índices pluviométricos acima da média. Não foi assim em 2012. “As águas do Atlântico estavam mais frias que o habitual, e isso não favoreceu a formação de nuvens no semiárido”, explica Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas. Em Cabrobó (PE), por exemplo, o volume de chuvas de janeiro a abril não alcançou um terço do esperado. E os piores meses de seca ainda estão por vir.

PARA AJUDAR
Vítimas da seca: procure a Articulação no Semiárido. Vítimas das cheias: fale com a Defesa Civil do Estado do Amazonas (tel. 92/3216 9375).

Fonte: Planeta Sustentável

Por aqui, passava um rio: o leito do Pajeu, em Triunfo, sertão pernambucano, secou completamente

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