A publicidad​e por trás da semente tolerante à seca

No final de dezembro de 2011 o Departamento de Agricultura do governo dos EUA (USDA, na sigla em inglês) autorizou o plantio comercial de uma variedade de milho da Monsanto geneticamente modificada para suportar condições de seca.

O fato é de grande importância: trata-se da primeira autorização para uma variedade transgênica teoricamente envolvendo uma característica complexa. Ao contrário das plantas transgênicas já cultivadas, em que a inserção de um gene foi responsável pela expressão de uma característica (para citar o que há de fato no mercado: tolerância a herbicida e/ou produção de uma toxina inseticida), a tolerância à seca depende de um complicado processo envolvendo vários genes. E, na verdade, controlar processos complexos assim é algo que muitos cientistas consideram ainda estar longe do alcance dos biotecnólogos.

Com efeito, tudo indica que o tal milho da Monsanto não funciona mesmo. A Avaliação Ambiental Final do USDA sobre o milho MON 87460, publicada em novembro de 2011, afirma que “é prudente reconhecer que a redução de perda de produtividade da variedade MON 87360 não excede a variação natural observada em variedades regionalmente adaptadas de milho convencional (Monsanto, 2010). Assim, variedades de milho igualmente resistentes à seca produzidas através de técnicas convencionais de melhoramento genético estão prontamente disponíveis e podem ser cultivadas no lugar da variedade MON 87460.” (p.33)

Ou seja, nas áreas do cinturão do milho dos EUA em que a deficiência hídrica ocorre, os melhoristas convencionais já desenvolveram variedades que toleram a falta de água tão bem quanto a variedade transgênica da Monsanto (observe-se que, em ambos os casos, trata-se de moderada falta de água).

A autorização para a comercialização da variedade modificada tão tolerante à seca quanto as similares convencionais que já existem poderia parecer inócua se não fosse um pequeno detalhe: a empresa detém o quase monopólio do mercado de sementes. Desse modo, na prática, a introdução da nova semente transgênica levará, invariavelmente, a duas situações: em primeiro lugar, as variedades convencionais tolerantes à seca já disponíveis, e que não são patenteadas e nem implicam no pagamento de royalties, logo não estarão mais tão acessíveis. Assim como tem acontecido não só nos EUA, mas em todos os países onde a empresa conseguiu impor sua tecnologia, as variedades convencionais vão sumindo do mercado, sendo ofertadas em seu lugar apenas as transgênicas – muito mais caras e com restrições de uso impostas pelas patentes. Em algumas regiões do próprio cinturão do milho americano os agricultores relatam que não conseguem comprar sementes de milho que não sejam Bt, ou seja, geneticamente modificadas para matar lagartas.

A segunda implicação da nova autorização é uma sutil derivação dessa primeira, relacionada à estratégia de marketing e relações públicas da empresa: à medida que a oferta de sementes tolerantes à seca se reduza à nova opção transgênica e, consequentemente, sua adoção se generalize, a Monsanto começará a anunciar o “sucesso” de sua tecnologia”: se não conferissem vantagens, os produtores não as adotariam maciçamente. Omite que a adoção maciça é decorrente justamente da falta de opções no mercado.

Essa situação também ajudará a Monsanto a rebater a crítica de que, passados quase vinte anos desde que as sementes transgênicas começaram a ser cultivadas, a chamada “engenharia genética” conseguiu consolidar apenas duas características agronômicas: a tolerância à aplicação de herbicidas, que beneficia basicamente as empresas de sementes e agrotóxicos e já começa a deixar de funcionar (há cada vez mais registros de espécies de mato capazes de driblar a tecnologia), e a produção, pelas lavouras, de toxinas inseticidas, cuja eficácia é passageira e altamente questionada (comumente a redução no uso de inseticidas acaba sendo negativamente compensada por outros problemas que começam a surgir). As famosas plantas transgênicas mais produtivas, mais nutritivas e, sobretudo, tolerantes aos solos salinos e à seca até hoje nunca saíram do discurso.

Bem…como acabamos de ver, estão começando a sair. E, funcionando ou não, a nova variedade, logo que adotada em alguma escala, permitirá à Monsanto alardear os supostos benefícios da biotecnologia para a produção de alimentos, ou, mais ainda, para a humanidade em tempos de mudanças climáticas.

Na nota publicada pelo USDA em 21 de dezembro em que são divulgadas notícias relacionadas à regulamentação de produtos biotecnológicos consta também que o órgão deu início ao processo de autorização para o milho transgênico da Dow tolerante ao herbicida 2,4-D, ingrediente do famoso agente laranja, utilizado durante a Guerra do Vietnã para desfolhar florestas e cujas dioxinas provocaram milhares de mortes e o nascimento de mais de 500 mil crianças com sérias malformações.

No Brasil a CTNBio já autorizou, em junho de 2009, o plantio experimental da “soja laranja”, também da Dow e também tolerante ao 2,4-D.

Fonte: Mercado Ético

 

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