Psicólogos analisam como vivem vítimas de enchentes e desabamentos no país

Foto : Luciano Moraes _Zero Hora / Agencia O Globo

Depois que a manutenção da vida deixa de ser a prioridade, sobreviventes de desastres naturais começam a contabilizar as perdas. Móveis, casas, carros e equipamentos que garantiam o sustento da família são apenas a parte mais visível e, no fundo, menos importante. O estrago verdadeiro das tragédias brasileiras foge ao alcance de cifras, balanços ou relatórios. É imensurável. Vem das lembranças de horror, da tentativa fracassada de salvar o filho ou a mulher, da inexistência súbita de 10 ou mais parentes, da perda dos laços sociais dentro de abrigos superlotados, do esquecimento posterior à comoção inicial. “O abandono se transforma em um novo desastre porque revitimiza as pessoas numa dimensão incalculável”, afirma Clara Goldman, vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

Sua afirmação vem de estudo inédito, encomendado pelo CFP ao Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (Neped) da Universidade Federal de São Carlos, que será divulgado em novembro. Sob o título Abandonados nos desastres: uma análise sociológica de dimensões objetivas e simbólicas de afetação de grupos sociais desabrigados e desalojados, a pesquisa revelou como vivem atingidos por enchentes e desmoronamentos em seis municípios de três regiões do país. Apesar de as análises se referirem a Ilhota (SC), União dos Palmares (AL), Barreiros (PE), Jaboatão dos Guararapes (PE), Petrópolis (RJ) e Teresópolis (RJ), o fiasco emocional detectado pode se estender aos milhares de brasileiros castigados pelas tragédias, muitas vezes anunciadas.

Para Tatiana Reichert, catarinense com ascendência alemã, não foi. Nunca nos seus então 34 anos, a mulher imaginou que a cidade pacata onde nasceu, hoje com cerca de 12,3 mil habitantes, passaria por tamanha tragédia. Mas, em 23 de novembro de 2008, Ilhota sucumbiu às fortes chuvas, que ocasionaram a cheia do Rio Itajaí-Açú, divisor da área urbana e rural do município. Foi na porção de Ilhota em que se cultiva arroz, banana e hortaliças que a destruição chegou. Tatiana não se esquece dos estrondos que ouvia durante a madrugada daquele domingo sem energia elétrica. À luz de velas, ela e o marido, Rosmael, ambos agricultores, mantiveram-se na cozinha de casa. Tatiana não desgrudou da única filha, de um ano na época, Maria Izabel, que dormia em seu colo. “Eu pensei: se a gente morrer, morremos juntas”, lembra.

Tatiana, Rosmael e Ana Izabel salvaram-se. A casa resistiu aos desmoronamentos que assolaram a parte rural de Ilhota. A 1,5km dali, porém, a moradia confortável dos pais, construída havia dois anos, depois de uma vida de economias, desfazia-se como se fosse de areia. Lama, pedras, postes, carros, bichos e gente morta adiavam a chegada de Tatiana ao local. Ela demorou mais de um dia para percorrer o caminho habitualmente feito em 20 ou 30 minutos a pé. Não havia comunicação na região. Quando chegou, a irmã já estava sendo velada. A mãe, Helena, desaparecida. Trinta e três dias depois, o saldo final foi de 14 familiares mortos, incluindo Helena, cujo corpo acabara sendo encontrado.

“Não precisa mais, porque eu vou morrer”
Mais nova dos três irmãos de Tatiana, Giane ficou soterrada nos escombros do próprio quarto. Aos 20 anos, a jovem trabalhava como costureira em Ilhota, que, além da agricultura, tem uma forte indústria de confecções demandadas por conhecidas lojas de departamento do Brasil. Debaixo da terra, a moça resistiu durante 10 horas. Depois de muito cavarem, o pai e vizinhos conseguiram retirá-la da lama gelada. O barulho dos helicópteros sobrevoando a cidade naquela noite era o estímulo de que a jovem precisava para acreditar no que o pai lhe dizia: “Paciência, tudo vai dar certo”. Ao fim de incansáveis 14 horas e meia em que se manteve consciente e conversando, Giane perguntou pela última vez. “Pai, vai demorar muito para o resgate chegar?” Cerca de cinco minutos depois, as forças acabaram. “Agora não precisa mais, porque eu vou morrer.”

Para Tatiana, de todos os sentimentos experimentados depois da tragédia em Ilhota, a indignação vem embalada de tristeza devido à falta de resgate. “Mesmo que, com o socorro, ela morresse, pelo menos teria exercido o direito de ser socorrida. Nossa história é a de muitos aqui”, diz a mulher, que só voltou para a própria casa depois de 75 dias. O pai de Tatiana, que tentou animar a filha mais nova até os últimos momentos, não gosta de lembrar aquele 28 de novembro.

Eliana Torga, especialista em psicologia de emergência e desastres na Espanha, ressalta que as reações à tragédia são diferentes. “Tem muito a ver com o perfil das pessoas, o histórico de vida. Mas é claro que presenciar a morte de um filho sem nada poder fazer é avassalador”, diz. Ser acometido por uma situação traumatizante não significa, necessariamente, ficar traumatizado, explica Eliana. Segundo estudos reconhecidos internacionalmente, depois de uma catástrofe, 70% terão sintomas de estresse num primeiro momento, recuperando-se depois. Entre os 30% restantes, metade se configura como as lideranças naturais, que focalizam seus esforços na reconstrução da própria vida e da comunidade; e a outra metade tende a desenvolver problemas mais graves, como depressão e transtorno de ansiedade. “O importante é não patologizar as pessoas nem vê-las como pobres coitadas, mas como protagonistas da retomada de suas vidas”, destaca Márcio Gagliato, psicólogo da Cruz Vermelha com atuação em mais de 10 países.

Fonte : Renata Marins_ CORREIO BRAZILIENSE

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