Presos ganham novo estilo de vida com reciclagem _ Paraná

Cada brasileiro consome, em média, aproximadamente 30 quilos de plástico reciclável por ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). Em 2010, de acordo com anuário do setor químico da entidade, foram consumidas no país cerca de 5,9 mil toneladas de plástico, o que representa 50% a mais do que há 10 anos. Bog Claudério Augusto _ SC

Com bonecos gigantes, verdes, vermelhos, azuis, transparentes, aparecendo por cima do muro, sons de máquinas trabalhando, rádio ligado e um animado converseiro, a Delegacia de Polícia de Mandaguari (a 39 quilômetros de Maringá) pode dar a quem passa pela rua a impressão de que ali funciona um barracão de escola de samba ou algum tipo de empresa onde as pessoas trabalham contentes. Nem de longe lembra outras cadeias, onde pessoas que cometeram crimes vivem amontoadas em celas superlotadas.

Na cadeia em que os presos só usam as celas para dormir é normal durante o dia ver grupos de estudantes levados por professores circulando pelo pátio e pessoas, inclusive empresários e autoridades, batendo animados papos com os presos. Os estudantes vão para conhecer o trabalho artístico realizado pelos presos e saem de lá com lições e ecologia e os empresários e autoridades vão para discutir parcerias para a continuação do trabalho “em que são beneficiados tanto os detentos quanto a comunidade”, como diz o delegado Zoroastro Nery do Prado Filho.

Por meio de uma organização não governamental criada na cadeia de Mandaguari, foi feito um acordo com a empresa Nova Atitude Reciclagem, de Maringá, que vende vassourões para prefeituras e empresas de várias cidades brasileiras feitos a partir de fios retirados de garrafas de Politereftalado de etileno, as conhecidas PETs que tantos problemas provocam ao meio ambiente. Em um barracão construído especialmente para a oficina dos presos, por meio de equipamentos inventados pelo fundador da empresa, Áureo Antonio dos Santos, os presos retiram o fio e encaixam em um suporte de plástico, montando o vassourão. As partes que sobram das garrafas de refrigerantes – o fundo e o bico – são destinadas ao artesanato e no mesmo barracão outros presos montam papais noéis, anjos, trenós e outras figuras, algumas gigantescas de até três metros de altura, que depois são pintadas. Para terminar, uma iluminação interna tornará os bonecos luminosos para enfeitarem as avenidas e praças da cidade no período natalino.

Clima positivo

“Aqui ninguém tem tempo para pensar em crime”, diz o soldador Aparecido Ramos, que coordena a construção do esqueleto dos bonecos com barras de ferro e ainda ensina seu ofício aos colegas interessados em ter uma profissão para quando sair da cadeia. “Estamos pagando nosso débito com a sociedade com um trabalho que nos deixa orgulhosos”.

Para o delegado, a oficina proporciona ocupação aos apenados, mas, “muito mais do que isto dá a eles dignidade, objetivos para a vida e o interesse de levar uma vida digna quando saírem daqui”. Segundo Nery do Prado, ao concluir a pena, a maioria dos presos não enfrenta dificuldades para trabalhar e geralmente é bem aceita de volta na sociedade.

O preso André Santos de Oliveira, que trabalha na montagem dos vassourões, diz que só vê vantagens no trabalho oferecido na cadeia de Mandaguari. “Por cada dois dias de trabalho nós temos a redução de um dia na pena, o que fazemos aqui é vendido e ganhamos dignamente dinheiro para mantermos nossas famílias lá fora”. “Além disso, não estamos em celas, estamos em um ambiente de trabalho honesto e agradável”, completa Ivandro da Rocha Batista.

Com mais de 20 anos de experiência em cerca de 10 delegacias, o agente Cláudio Vicente de Farias diz que não conhece outras cadeias onde o clima entre os presos seja tão positivo. “O trabalho dá a eles um objetivo e assim a convivência, ao invés de ser um aprendizado do crime, como ocorre em outras cadeias, torna-se uma união de forças”.

Segundo o policial Gustavo Ricciardi de Aguiar, “eles têm consciência de que estão realizando um trabalho importante e isso é importante para a autoestima”. De acordo com o policial, o trabalho é ecológico, por retirar de circulação milhares de garrafas plásticas, transformando-as em enfeite que em breve poderão estar no Natal de outras cidades.

 

AVALIAÇÃO

“Não estamos presos em celas, estamos em um ambiente de trabalho honesto e agradável”

Ivandro da Rocha Batista, detento

Fonte : Luiz de Carvalho _ O DIARIO.COM

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