Pesquisador desenvolve técnica que transforma lodo de esgoto em concreto

Antes de chegar às casas, a água passa por vários processos de tratamento para remover impurezas, bactérias, protozoários e micro-organismos que podem afetar a saúde do consumidor. Desse processo, originam-se resíduos sólidos que normalmente são descartados na natureza, podendo poluir rios e lagos ou sobrecarregar os aterros sanitários. Daí a importância do invento do pesquisador da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) Álvaro José Calheiros da Costa. Ele conseguiu usar o lodo resultante desse processo na fabricação de concreto. A ideia mostra que há formas de reduzir os danos ao meio ambiente e que até a sujeira pode ser útil.

Os estudos realizados por Costa mostram que o tipo de concreto criado por ele pode perfeitamente ser usado na recomposição das calçadas. “Como eu trabalhava numa empresa de saneamento, percebi que, no dia a dia, para a manutenção das tubulações de água e esgotos, nossas equipes precisavam quebrar as calçadas dos clientes para acessar essas tubulações”, explica Costa. “Após a finalização dos serviços, a empresa deveria recompor a calçada com as condições originais. Como a maioria é confeccionada em concreto, pensei em incorporar o lodo a essa mistura”, conta, explicando a origem de sua ideia.

Na opinião do engenheiro, o uso do lodo no concreto é uma maneira bastante simples de reutilizar um material potencialmente danoso ao meio ambiente, muitas vezes contaminado com metais pesados, como cádmio, manganês e chumbo. “Estima-se que cerca de 99% dos municípios brasileiros lançam os resíduos de tratamento de água em redes de drenagem de águas pluviais que os levam in natura para os córregos e rios mais próximos. Desta forma, com a reutilização, o lodo deixa de ser lançado de modo bruto no meio ambiente”, defende. O pesquisador enumera ainda outras vantagens do novo tipo de concreto para calçada. Entre elas está a redução de gastos com a disposição desses sedimentos em aterros sanitários, que passam a ter mais espaço livre para outros resíduos.

Para respaldar o porquê de o reaproveitamento do lodo das estações ser tão importante, Costa cita a Lei Federal n.º 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos. O artigo 3º da legislação aponta que a destinação ambientalmente adequada de sedimentos “envolve a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação, o aproveitamento energético e a disposição em aterros sanitários observando-se as normas específicas para evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança”.

O estudo, feito na Estação de Tratamento de Água de Mirassol, município de São Paulo, constatou que na cidade são produzidas cerca de 10t de sedimento por mês, que são classificados como Classe II A — não perigoso e não inerte. Isso significa que esse lodo não representa perigo direto para a saúde, mas é biodegradável, combustível e solúvel em água, podendo causar danos à população e à natureza a longo prazo.

Resistência

Os testes mostraram que a presença do lodo pode reduzir a resistência do concreto, sem, contudo, prejudicar seu uso para a pavimentação. “Normalmente, os concretos para confecção de calçadas não recebem muita pressão, nem por longos períodos”, afirma Costa. Desse modo, o engenheiro assegura que pode-se manter a espessura usual de 5cm da área onde os pedestres caminham sem perda sensível de qualidade. Ele acrescenta que as calçadas feitas com esse material também são impermeáveis e têm boa durabilidade, embora não especifique por quantos anos elas podem permanecer sem ajustes.

Questionado sobre a possibilidade de usar o material em outros tipos de ações de engenharia, o pesquisador é cauteloso: “Quando se trata de concretos para fins estruturais, são necessários mais ensaios para comprovar se a incorporação do lodo é ou não viável”.

Costa ressalta que gostaria de fazer experiências com o uso de sedimentos para a produção de calçadas com menor quantidade de cimento, já que, na pesquisa, foi usada uma parte de cimento para duas de agregado miúdo — material granulado mais fino, como a areia e o lodo seco — e três de agregado graúdo — pedras, em geral. O objetivo desses testes seria reduzir ainda mais os custos de aproveitamento do material, sem perder a qualidade e resistência da calçada.

O engenheiro comenta, ainda, que a estação de tratamento de Mirassol poderia, para reduzir a quantidade de lodo produzido, recompor a mata ciliar das áreas onde a água é captada, para evitar assoreamento e, consequentemente, a qualidade não tão boa do líquido. Outra sugestão para melhorar a água consumida pela população sem a necessidade de adicionar grandes quantidades de produtos químicos é limpar os filtros e decantadores mais frequentemente. Isso, segundo Costa, faria inclusive com que o lodo tivesse mais qualidade e menos chances de contaminar o ambiente.

Distrito Federal

No caso específico de Brasília, a superintendente de Produção de Água da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), Tânia Daylão, acredita que a produção não seria economicamente viável, embora destaque que a ideia do pesquisador é muito boa. “A produção de lodo resultante do tratamento de água é muito baixa no Distrito Federal. Chegamos a ter, em média, 500t de resíduos nos períodos de chuva e 250t na época de seca”, descreve. “Para usar esse lodo o ano todo, a quantidade de sedimentos deveria ser constante”, alerta a superintendente.

Segundo Tânia, a presença de poucos resíduos se deve ao baixo uso de materiais químicos para a limpeza da água no DF. “A qualidade de nossa água, em geral, é muito boa, porque grande parte dos mananciais está em áreas protegidas. Por isso, não precisamos misturar tantos produtos químicos para torná-la mais limpa para o consumo”, ressalta.

Objetivos

O tratamento da água dos mananciais é feito para atender a três aspectos: higiênicos (remoção de bactérias, protozoários, vírus e substâncias nocivas), estéticos (correção da cor, sabor e cheiro) e econômicos (diminuição da corrosividade do líquido e da quantidade de ferro e manganês na composição).

Fonte : Thais Luna_Correio Braziliense

 

 

 

 

 

Print Friendly, PDF & Email