O lago que não quis desaparecer

Seis anos depois da construção de um dique que elevou em dois metros o nível da água na parte norte do Mar de Aral, e reduziu sua salinidade em dois terços, o lago da Ásia central que foi sinônimo de catástrofe ecológica se converteu em um modelo de recuperação ambiental.

“É incrível como se recuperou”, disse à IPS o especialista Philip Micklin, da Universidade de Western Michigan, na cidade de Kalamazoo, Estados Unidos. Ele mediu a salinidade e a comparou com pântanos de juncos com lavanda, patos, cisnes e até flamingos, ao sul de Akbaste, este povoado pesqueiro do Cazaquistão. “Já tem menos sal do que se esperava”, acrescentou, surpreso pela transparência da água que conheceu durante uma expedição de duas semanas nas imediações do Mar de Aral.

O governo da hoje extinta União Soviética decidiu, no começo da década de 1960, desviar a maior parte da água de dois rios que desembocam nele para irrigar vastas extensões de cultivos de algodão. “Optaram pelo algodão, em detrimento do pescado”, disse Micklin, indicando que o primeiro se usa para fabricar uniformes e o segundo pólvora. O Uzbequistão, que conseguiu sua independência em 1991, herdou a parte sul do Aral e o Amu Darya, o maior dos rios que levam a água das geleiras da Cordilheira de Pamir até o lago e o mantém frio. Esse país também priorizou o algodão para a exportação, que se transformou em sua principal fonte de divisas.

O desvio dos rios fez com que a superfície do Mar de Aral, que significa “ilha” na língua do Cazaquistão, diminuísse 10% e seu leito se confundisse com o deserto da Ásia central. Nos primeiros anos das obras, as tempestades de pó dispersaram nuvens de sal e pesticida pela região. Isso levou ao aumento de doenças respiratórias, segundo médicos locais. A água restante formou três lagos, o conteúdo de sal aumentou e os peixes emigraram para os deltas dos dois rios.

No norte, a parte do Cazaquistão, o Mar de Aral é menos salobro e nele foi introduzido o peixe-carta, que tolera maiores quantidades desse elemento, a fim de oferecer um mínimo de proteína à população local. No Uzbequistão, a sudoeste, o lago é quatro vezes mais salobro do que o oceano e apenas certos camarões sobrevivem. Na parte sudeste, muito menos profunda, quase desapareceu totalmente.

Ao se retirar cem quilômetros para o sul de Aralsk, o outrora florescente porto com uma grande fábrica de enlatados e um aeroporto, agora fechado, ficou tão desolado como os 200 barcos que iam ficando encalhados enquanto o lago secava. Durante décadas, os barcos ofereceram ninhos aos falcões e sombra para as vacas, cavalos e camelos que perambulavam pelo deserto pardo de argila, que só tolera uns poucos arbustos baixos. Agora que aumenta a demanda por minério de ferro na China, a maioria dos cascos dos barcos foi cortada e enviada ao exterior, deixando pontes enferrujadas que se erguem sobre o deserto.

Em 2005, o Cazaquistão recebeu um fluxo de divisas pela venda de petróleo. Com assessoria e empréstimo do Banco Mundial, construiu um dique de 13 quilômetros que impediu que a água do Syr Darya fluísse para o sul e evaporasse. A obra permitiu que o lago aumentasse 18% e voltassem os peixes de água doce. O projeto teve um êxito espetacular. Mais de duas dezenas de espécies do delta se reproduziram com vertiginosa rapidez em meio aos juncos que se propagavam nas partes mais baixas do lago, oferecendo local de desova e atraindo milhões de aves.

Os pescadores retiraram cerca de cinco mil toneladas ao ano, e o peso combinado estimado dos peixes do Aral aumentou de 3.500 para 18 mil toneladas em seis anos. “Continua crescendo”, disse o diretor de pesca regional, Zaualkhan Yermakhanov, com um sorriso de satisfação, enquanto supervisionava uma captura para fins científicos. “Não me surpreenderá se chegar a 40 mil toneladas nos próximos cinco anos”, acrescentou.

Já se sente os benefícios. Em Aralsk há uma fábrica que emprega 41 pessoas e faz filés, empacota e congela lucioperca, entre outros peixes, para exportar para várias cidades. Seu diretor espera conseguir a aprovação necessária para exportar para a União Europeia, onde essa variedade tem maior saída do que o salmão. Além disso, está sendo construída outra fábrica perto desse povoado.

A poucos quilômetros de Akbaste, uma dezena de pequenos pescadores parte ao anoitecer para lançar sua redes, que recolhem ao alvorecer com peixes comestíveis e aptos para a venda. “Os pescadores podem ganhar cerca de US$ 2 mil por mês”, disse Yermakhanov. É uma quantia importante para esta região, onde construir uma casa espaçosa custa US$ 15 mil.

“O dique mudou a vida”, disse Nargali Demeiuov, de 79 anos. “As pessoas voltam ao povoado”, acrescentou. Seu filho também é pescador e tem uma caminhonete Nissan Patrol. Seu neto, professor há 16 anos, disse que agora as crianças estão melhor alimentadas do que antes e prestam mais atenção nas aulas. “A lição deixada pelo Mar de Aral é que, se ao menos restar um pequeno ecossistema intacto, serve de refúgio às espécies, de tal forma que quando é reabilitado, o restante se recupera”, explicou Micklin.

Por Christopher PalaEnvolverde/IPS

Sinônimo de catástrofe ecológica no século 20, o Mar de Aral vem se recuperando graças a obras do governo do Cazaquistão

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