FAO alerta que mudanças climáticas devem tornar extinções ainda mais severas

Tratar de um problema olhando apenas as suas causas diretas é algo ultrapassado, sendo que a ciência e as diversas entidades interessadas atualmente tentam buscar toda a cadeia de interconexões para solucionar os dilemas da sociedade moderna.

“A Vida selvagem em um Clima em Mutação” é o título do mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO, em inglês) que descreve as consequências das mudanças no clima sobre a vida selvagem, indicando medidas potenciais para adaptação como restauração e abordagens que incluam todo o ambiente.

Dentre os assuntos explorados pelo relatório estão as mudanças ecossistêmicas, interações entre espécies, conflitos entre humanos e a vida selvagem, incêndios, saúde e doenças.

Englobando os habitats terrestres (florestas, montanhas, áreas úmidas, savanas, campos e estepes), o relatório ressalta que a crise de extinção da biodiversidade provavelmente será pior com as mudanças do clima.

Os impactos incluem modificações nas condições físicas (cobertura de neve, permafrost e nível do mar) padrões climáticos e funcionamento dos ecossistemas.

“Como consequência, a vida selvagem terrestre, de água doce e marinha será severamente afetada a menos que consigamos lidar com as mudanças climáticas através de um planejamento e ações decisivas”, enfatizou a FAO.

Estimativas indicam que nos últimos 40 mil anos, o ser humano já contribuiu para a extinção de mais de dois terços da fauna de grande porte (animais com peso maior que 50 kg) e a FAO indica que entre 20% e 30% das espécies de plantas e animais estarão sob risco de desaparecer devido ao aquecimento global.

Alguns táxons são mais vulneráveis, como 566 das 799 espécies de coral de águas quentes, assim como 35% das aves e 52% dos anfíbios. No geral, o impacto deve ser maior em espécies já severamente ameaçadas: 70% a 80% das aves, anfíbios e corais presentes na lista vermelha.

Um exemplo trazido pelo relatório é da população de gorilas das montanhas na Área de Conservação dos Vulcões Virunga na África Central. Após anos ameaçados pela caça e degradação de habitat especialmente por estarem em uma zona de guerra civil intensa e genocídio, os números dos esforços de conservação demonstram uma frágil recuperação da população. O censo de 1981 apresentava 242 animais, enquanto atualmente a população conta com 480 gorilas Virunga.

Entretanto, com o aumento da temperatura os gorilas endêmicos (só existem nesta região) enfrentam novas ameaças, pois as zonas de vegetação tendem a subir as montanhas, mudando a distribuição das diferentes espécies. Mas o gorila afro-alpino que se encontra no cume não teria para onde ir.

“(As florestas) fornecem serviços essenciais que dão suporte ao modo de vida e bem estar humano e a maior parte da biodiversidade, além de estocarem cerca da metade do carbono total contido nos ecossistemas continentais”, ressalta o relatório.

Ecossistemas degradados são menos resilientes às mudanças no clima, portanto como potenciais fatores de mitigação, a FAO sugere metas para a manutenção dos ecossistemas relacionadas ao manejo adaptativo, restauração e abordagens mais abrangentes integrando toda a paisagem.

Lidar com o manejo da vida selvagem em meio a múltiplas preocupações é desafiador, por isso a publicação também sugere que seja informado à humanidade o valor das espécies e ecossistemas como uma estratégia para construir a vontade política para a conservação.

Para ter sucesso nesta empreitada, a FAO lembra do papel “crítico” da implantação, manejo e manutenção de um sistema efetivo de áreas protegidas.

“Ao passo que embarcamos em um período de grandes incertezas, é necessário mais pesquisas e monitoramento cauteloso para garantir que o manejo adaptativo e outras abordagens novas possam ter sucesso na resposta às pressões climáticas existentes e emergentes”, conclui a FAO.

Fonte: Instituto Carbono Brasil

Imagem: Mudanças climáticas impõem ameaças adicionais aos gorilas das montanhas / FAO

Imagem: Mudanças climáticas impõem ameaças adicionais aos gorilas das montanhas / FAO

 

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