Entrevista com a bióloga Maria Léa Salgado-Labouriau

Quando a maioria dos colegas afirmava que o cerrado era uma vegetação secundária decorrente da queima e da destruição de matas feitas pelo homem pré-colombiano, a bióloga Maria Léa Salgado-Labouriau, da Universidade de Brasília (UnB), usava o pólen das plantas cristalizado por milhares de anos para descrever outro tipo de paisagem. Graças à palinologia (estudo dos pólens), ela mostrou que, no lugar onde estão Goiás e Distrito Federal, as savanas já tinham aparência semelhante à atual há cerca de 34 mil anos.

Membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia de Ciências de Nova York e fellow da Fundação Guggenheim, Maria Léa ajudou a montar o primeiro Laboratório de Palinologia e Paleoecologia do Centro-Oeste e é autora de vasta produção científica, incluindo quatro livros fundamentais no ensino da paleoecologia. O primeiro deles — Contribuição à palinologia do cerrado, de 1971 — é apreciado também por médicos alergistas. No campo da aerobiologia, o pólen é uma excelente pista para que o médico acerte o alvo da alergia de seus pacientes.

Maria Léa nasceu em agosto de 1931, no Rio de Janeiro, mas ainda criança passou a viver com a família em Minas Gerais, onde o pai, o engenheiro civil Oscar Salgado, ocupava um cargo de diretor de mina, em Ouro Preto. Primeiro ela queria ser engenheira de minas, mas logo desistiu da ideia. Mudou-se para Belo Horizonte, onde se formou em história natural. Depois, já casada com o botânico Luiz Fernando Gouvêa Labouriau, passou a ensinar na UnB, mas logo veio a ditadura e o casal foi banido do país. Os dois viveram 17 anos na Venezuela com os quatro filhos e só voltaram ao Brasil em 1988. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista que a bióloga concedeu ao Correio, em sua casa, na Asa Norte.

A senhora estuda o passado por meio de microfósseis de pólen para entender melhor o presente. O que causa mais decepção, o passado ou o presente?
A tendência dos mais velhos é dizer que, no seu tempo, as coisas, a vida eram melhores, mas é mentira. Todas as épocas têm suas vantagens e desvantagens, têm o que há de melhor e o que há de pior. Agora, você precisa ver de que ponto de vista estamos falando. Por exemplo, para a mulher, está muito melhor do que no meu tempo. Naquele tempo, era como um reitor da Escola de Minas de Ouro Preto me disse: “Vá para casa, vá lavar roupa no tanque e cuidar dos filhos”.

Em que contexto ele disse isso?
Eu era a única mulher que, naquela época, menina ainda, queria fazer cursinho preparatório para passar no vestibular de engenharia de minas. Mas não pude, porque no segundo dia de aula o reitor me viu e perguntou o que eu estava fazendo ali. Eu disse que estudava no cursinho, e ele disparou: “O quê? Vá embora para casa, que lugar de mulher é no tanque”. Aí eu saí de lá uma fera e, quando cheguei em casa, contei a meu pai. Ele me acalmou, mas disse que eu não podia mesmo fazer engenharia de minas, porque mulher não podia entrar em minas. Não pode até hoje. Eles dizem que, se uma mulher entrar em uma mina, o ouro desaparece (risos).

E do ponto de vista ecológico, o planeta melhorou?
Pelos estudos que faço, o clima da Terra está oscilando dentro do normal. Com relação ao homem e à natureza, também essa relação está melhorando. Você pode ver que fazendeiros que cortaram a mata até a beira do rio estão sendo obrigados a plantar de novo. Quero dizer que está havendo uma conscientização maior da sociedade. Uma coisa é você ter os professores na universidade, o mundo da academia, mas quem faz as mudanças é o povo. Quem fez a Revolução Francesa foi o povo que gritava na praça, saía nas ruas.

É verdade que a Terra está esquentando?
Realmente está um pouco mais quente. Mas essas coisas são oscilações: um ano ou outro está mais quente, um ou outro está mais frio, mas isso são oscilações. Com o meu trabalho, eu ainda não vi nada, até agora, que pudesse atestar que a Terra está aquecendo. Mudança climática é de eras glaciais para interglaciais, e a última glaciação começou há 14 mil anos, e é provável que tenhamos outra daqui a 5 mil anos. Mas essas oscilações existem, são normais e não vejo nenhuma razão para o planeta aquecer ou ficar seco.

Alguns cientistas afirmam que os polos estão aquecendo, as geleiras derretendo…
É. Mas isso sempre houve. O que acontece é que, muitas vezes, essas estimativas são feitas por pessoas que não têm perspectiva do tempo geológico. Vi uns estudos sobre derretimento da calota polar e sobre o crescimento das geleiras, que vão derreter e depois retroceder. Diante disso, parece que está havendo mesmo um aquecimento, mas não sabemos até quando. A tendência no momento é de oscilação e não de mudança climática.

Como a senhora começou a se interessar pela palinologia?
Olhe, meu pai tinha uma visão muito ampla do mundo e me incentivava a estudar. Foi ele quem me apontou, de certa maneira, esse caminho. A questão é que, depois da experiência em Ouro Preto, eu resolvi fazer história natural em Belo Horizonte, na Universidade Federal de Minas Gerais. Naquele tempo, em história natural você estudava geologia e biologia. Eu estava sempre com um olho em geologia, mas minha ênfase maior foi para a biologia, na qual me especializei. Dentro da biologia, eu conheci a botânica e as plantas, e depois fui para o pólen. Mas essa minha história com o pólen vem do estudo das plantas. Eu percebi que o pólen se conservava e que podia ser usado para medir a idade do planeta por milhares e milhares de anos (grãos de pólen fossilizados são encontrados nas rochas desde aproximadamente 1,4 bilhão de anos atrás, na primeira idade da Terra, até ao presente).

Que conclusões a senhora destaca nos estudos sobre o cerrado?
Começamos por Lagoa Santa, em Minas Gerais, e conseguimos recuperar a paisagem de 4,5 mil anos atrás para cá e também mostramos que o homem viu a formação da lagoa. Era o que chamamos de o Homem da Lagoa Santa. Aquilo lá era um vale. Mas, quando começou um período de chuvas fortes, houve deslizamentos de barreiras e com isso o vale foi vedado e surgiu a lagoa. Outra etapa desses estudos com o pólen ocorreu em Águas Emendadas, nas lagoas Feia e Bonita (a 40km de Brasília). Concluímos que isto aqui (Goiás, DF e regiões vizinhas) sempre foi uma região de cerrado. Há cerca de 34 mil anos já era assim. Houve épocas de cerrado mais e menos denso, mas isso aqui não era área de floresta, como afirmavam certas teorias que caíram por terra. Uma dessas teorias dizia que o cerrado era uma mata secundária dessas florestas devastadas pelo homem, mas isso não ocorreu. Outra constatação do estudo com pólen indica a ocorrência de queimadas por causas naturais, aqui no cerrado, há mais de 10 mil anos. Mas não era o homem que fazia aquilo, era fogo natural. A cultura dos índios que viviam aqui no Período Paleolítico era muito simples. Eles não interferiam na natureza, não agrediam o meio ambiente. A interferência do homem no interior só começou há cerca de 500 anos. É muito pouco, do ponto de vista geológico. Concluímos ainda que, entre 10 mil e 7 mil anos, começou um período de seca, tanto que Águas Emendadas (que abriga as nascentes das bacias Amazônica e Platina) secou.

Em que outras investigações científicas a palinologia pode ser usada?
Ah, é um universo imenso. Serve para uma série de coisas, desde para confirmar a pureza do mel até para investigações policiais. Pode ser usada ainda para fazer estudos genéticos e evolucionários, identificar as plantas disponíveis em tal e tal período, e, na aerobiologia, serve para monitorar a dispersão do pólen na atmosfera. Veja, para os médicos alergistas, esses estudos são muito importantes, porque podemos identificar o tipo de pólen que causa alergia.

Qual dos seus trabalhos a senhora considera mais importante?

Este livro apresenta a história da Terra sob um novo aspecto. Mostra a evolução dos ambientes aquáticos e terrestres e a sua interrelação com as formas de vida que surgiram progressivamente na Terra. A História Ecológica da Terra está escrita em uma linguagem simples, sem perder o rigor científico. Torna-se, assim, acessível a todos os que se interessam pelos problemas ambientais e pela sobrevivência do homem e dos ecossistemas naturais. Editora : EDGAR BLUCHER

Gosto muito dos livros que escrevo, porque você para tudo e faz sozinho. Os artigos que escrevo para revistas especializadas são importantes, mas escrevo-os sempre em inglês ou em francês, ao contrário dos livros, que faço questão de escrever em português. Veja, A história ecológica da Terra está na sétima edição, escrevi ele numa linguagem simples, e por isso os estudantes gostam, procuram e entendem. Eu escrevo e publico os livros no Brasil porque eu acho que devo isso ao meu país. El médio ambiente paramo, eu escrevi em espanhol porque estava na Venezuela, mas os outros três são todos em português. Estou escrevendo meu quinto livro, que se chama A interferência humana na natureza, no qual vou mostrar que essa interferência pode ser tanto para melhor ou pior.

Quando a senhora pretende publicar o livro?
Não estou muito preocupada com isso. Já terminei o livro, mas estou fazendo uma revisão de dados, pois há coisas recentes, de 2010, 2008, que tenho de conhecer. Eu dividi os capítulos por continentes. O de número zero é a África. Isso porque, numa escala de tempo, há diferenças de continente para continente sobre a interferência do homem na natureza. Por exemplo, no Egito, há milhões de anos, o homem já estava construindo pirâmides. Aqui, nessa parte da América do Sul, no Brasil, tem menos de 10 mil anos. Então comecei o livro pela África, onde surgiu o Homo sapiens. Vê como somos importantes, nós somos muito sábios, viu? Por isso nos intitulamos de Homo sapiens (risos). Depois da África, o homem foi para a Ásia e a Europa e assim por diante. Então, eu vou seguindo os passos da interferência do homem.

Como a senhora se sente ao completar 80 anos?
Muito bem, porque trabalho diariamente, estudo, escrevo meus livros. Olhe, em geral, as pessoas costumam sofrer um certo impacto quando fazem 40, 50, 70 anos. Cada vez que a dezena muda, você leva um susto, vem esse choque. Mas isso já passou, já estou acostumada com os meus 80 anos.

 Fonte : Correio Braziliense _ Carlos Tavares

 

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