Diamantes podem se formar no Manto Inferior, a 660km abaixo da superfície

Diamante Cullinan, com 621 gramas, o maior já encontrado. Foto : Divulgação

Alguns dizem que apenas eles são eternos. Outros acreditam que são os melhores amigos das mulheres. Há séculos, os diamantes estão entre as pedras preciosas mais cobiçadas e desejadas do mundo. Para a ciência, essas rochas formadas pela ligação de vários átomos de carbono permanecem como um mistério. Muitas perguntas sobre como, onde e por que o mineral se forma intrigam os pesquisadores. Agora, uma nova descoberta, feita com a participação de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e divulgada na revista Science desta semana, trouxe novos conhecimentos sobre o local onde essas gemas podem ser formadas. Ao contrário do que se imaginava, elas podem surgir no Manto Inferior da Terra, 660km abaixo da superfície. Até então, os especialistas acreditavam que um diamante nunca poderia surgir a uma profundidade maior que 150km.

Além de modificar a forma como os pesquisadores veem a formação dos diamantes, a descoberta trouxe uma novidade extra: é a primeira vez que se comprova que regiões tão profundas da Terra participam do ciclo do carbono, um processo essencial à manutenção da vida, onde a matéria orgânica — formadora dos seres vivos — é constantemente reciclada pela natureza.

“Os resultados oferecem uma perspectiva mais ampla do nosso planeta como um sistema integrado e dinâmico”, afirma Nick Wigginton, editor associado da Science, em um comunicado distribuído à imprensa. Isso significa dizer que a Terra é um organismo muito mais integrado do que se imaginava até então, e que regiões profundas, que pareciam completamente isoladas, participam da formação da vida. “Esse estudo mostra a extensão do ciclo de carbono da Terra, conectando os processos químicos e biológicos que ocorrem na superfície e nos oceanos com as profundezas do interior do globo”, acrescenta.

Mina brasileira
Para chegar a essa conclusão, os geólogos estudaram diamantes encontrados em Juína, no noroeste de Mato Grosso. Ao contrário da maioria das ocorrências de diamantes brasileiras, em que as pedras são encontradas no fundo dos rios, em Juína as pedras preciosas são encontradas ainda no kimberlito, a rocha primária que contém esses diamantes.

A pesquisadora Débora Araújo, do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB),é uma das responsáveis pela descoberta. Estudiosa dos diamantes de Juína desde o doutorado, a especialista explica que já haviam modelos de que rochas da superfície penetram no Manto Inferior por meio da subducção da placa oceânica. “No entanto, nunca tínhamos conseguido encontrar uma prova mineralógica de que isso acontecia”, conta.

Nas análises feitas por Débora e seus colegas, foram encontrados no interior da gemas minerais comoa peroviskita de magnésio e a peroviskita de cálcio. “Esses minerais são previstos em experimentos para se formar no Manto Inferior mas em Juina suas composições químicas são semelhantes aquelas esperadas para minerais presentes na crosta oceânica que atinge o manto inferior, ou seja, isto mostra que matérias da superfície penetram no manto inferior e contribuem para formação de minerais. Além disto, o carbono presente nestes diamantes mostra que o carbono da superfície presente na placa oceânica também chega no manto inferior. Esta descoberta contribui para discussão sobre o ciclo do carbono na Terra”, explica a especialista da UnB.

Surpresa
A descoberta embaralha ainda mais o que os cientistas acreditavam saber sobre o cobiçado mineral. O gemologista da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Júlio César Mendes se mostra surpreso com a nova descoberta. “Até onde eu sei, a pressão e a temperatura de regiões do Manto Inferior destruiria as ligações entre os carbonos”, afirma. “Formação de diamantes em profundidades superiores a 150km é realmente uma novidade para mim”, admite.

De fato, a descoberta deixa algumas perguntas sem respostas. Entre as questões a serem esclarecidas, está a de onde vem o carbono necessário para a formação das gemas. “Existem algumas teorias em relação a isso, mas ainda não há consenso sobre nenhuma delas”, conta Mendes. “Alguns pesquisadores acreditam que o carbono vem de matéria orgânica, restos de animais e plantas que são levados para a região por movimentos geológicos”, diz o pesquisador mineiro.

A outra possibilidade para a chegada do carbono em regiões profundas é de que ele venha de materiais que são encontrados no próprio local. “Alguns tipos de carbonatos que se encontram na região podem se degradar, e fornecer o carbono para os diamantes”, completa o gemologista da Ufop. “O que sabemos é que se trata da substância mais dura e uma das mais resistentes às variações de calor já encontradas na natureza”, completa Mendes.

 

Fonte : Max Milliano Melo _ Correio Braziliense

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