Desenvolvimento pode custar mais da metade do PIB chinês

Ponte sobre o rio que corta Shangba é a porta de entrada do vilarejo que sofre com o desenvolvimento chinês Foto: Fernanda Morena/Especial para Terra

Os 30 anos que se passaram entre o dia que a China de Deng Xiaoping se abriu ao capital estrangeiro – alavancando sua economia e empregando a mão de obra abundante – ao status de segunda maior economia do mundo revelaram que o crescimento não foi gratuito. Como tudo é magnificado no Império do Meio, também são colocados sob a lupa os problemas sociais e ambientais que, atualmente, ameaçam o poder comunista. Especialistas estimam que o boom econômico custe anualmente entre 3,5% e 8% do Produto Interno Bruto (PIB) e 400 mil vidas.

“A China, como a maioria dos países, calcula seu crescimento pelo PIB, sem levar em consideração o que o desenvolvimento faz para seus bens e recursos”, aponta Jonathan Watts, autor do livroQuando um bilhão de chineses pularem. O jornalista, especialista em meio ambiente, ressalta a importância do cálculo dos custos do crescimento. “De acordo com o Banco Mundial, os valores chegam a 8% do PIB. O Ministério de Proteção Ambiental diz que fica abaixo dos 5%. Há estudos que dizem que, assim, a economia chinesa pode mesmo nem estar crescendo”.

Com o PIB nacional crescendo aos 8% após a reforma, a China tirou 400 milhões de pessoas da linha da pobreza absoluta. Hoje, 200 milhões de chineses ainda vivem com menos de US$ 1 por dia. Entre 1979 e 2005, o país conseguiu saltar da 108ª posição para a 72ª no índice mundial de desenvolvimento do Banco Mundial. Ainda que a China esteja distante do topo do ranking, sua ascensão acontece mais rapidamente em comparação aos demais países, conforme o relatório de Indicadores de Desenvolvimento Mundial do Banco Mundial de 2011.

Modelo é o maior problema
A reforma econômica chinesa, implementada por Deng Xiaoping em 1979, visou a entrada de investimento estrangeiro direto no país para garantir o avanço das indústrias. Para receber os aportes, o governo lançava mão de políticas que eram pouco rígidas em relação a meio ambiente e direitos humanos. Com a transformação do país na fábrica mundial, a China tornou-se também o alvo de críticas do Ocidente pela situação do planeta. “O meio ambiente da China é o meio ambiente do mundo – mas os problemas estão mais ligados ao nosso modelo econômico de consumo do que ao país”, avalia Watts.

Para Watts, “a China não é o única culpada pela situação que vivemos. O que acontece na China tem mais impacto pelo tamanho do país, mas, na verdade, o maior problema é o sistema de consumo alimentado pelos países ricos”. A reforma chinesa recebeu influência direta da revolução industrial britânica, que também seguia a norma de priorizar a produção e gerar aumento do PIB em vez de garantir a qualidade de tal crescimento. “Mas a Inglaterra é tão pequena que seus impactos globais foram menores”, ressalta Watts.

Poluição da água e do ar são os grandes vilões
Estudo realizado pelo Banco Mundial em 2007 em 341 cidades, intitulado “Custos da Poluição na China” revela que o avanço tecnológico atingido pelo país foi relativamente positivo para o meio ambiente. A China é hoje três vezes mais eficaz no uso de energia em comparação ao início do processo de reforma. Os níveis de poluição, entretanto, seguem uma crescente: o consumo de energia subiu 70% entre 2000 e 2005, e o uso de carvão subiu 75% no período.

O documento foi elaborado com base no 10º Plano Quinquenal mandarim (um plano de metas do governo que dura cinco anos e lança as diretrizes do desenvolvimento nacional). Emissões de dióxido de enxofre (SO2) e chumbo aumentaram 42% e 11%, respectivamente, em relação aos valores estipulados como meta. Entre 2001 e 2005, 54% dos sete principais rios do país eram impróprios para o consumo – um crescimento de 12% em relação à década de 1990.

As províncias mais poluídas concentram-se no norte (Qinghai, Nigxia, Beijing, Tianjin, Shaanxi e Shanxi), além de Hunan, que fica ao sul do país. Casos de morte prematura relacionados à poluição custaram, em 2003, 157,3 bilhões de yuans ao país (quase US$ 25 bilhões), o que representa 1,16% do PIB. Com dois terços da população rural ainda sem acesso à água encanada, diarreia e câncer do sistema digestivo comprometem 1,9% do PIB rural. A falta de água tratada e a poluição dos rios criam despesas de 147 bilhões de yuans ao ano. O comprometimento da saúde, que aumenta custos de hospitais e tira as pessoas da produção, consome 3,8% do PIB nacional. Chuva ácida, causada pelas emissões de SO², custa 30 bilhões de yuans em plantações e 7 bilhões de yuans na destruição de bens materiais (como prédios) anualmente. As províncias mais afetadas pela chuva ácida são Guangdong (Cantão), com 24%; Zhejiang (16%) e Jiangsu (16%).

A irrigação de plantações com água poluída gera despesas de 7 bilhões yuans ao ano, ao passo que a pesca perde 4 bilhões de yuans anualmente. A poluição de água custa entre 0,3% e 1,9% do PIB rural (o valor não contabiliza as mortes por câncer). Ainda assim, casos de diarreia na zona rural chinesa são menos volumosos que muitos outros países (inclusive os que têm água tratada), conforme o estudo.

De acordo com o Banco Mundial, o total de recursos comprometido pela poluição do ar e da água na China foi de 362 bilhões de yuans em 2003 – 2.68% do PIB. Isso se considerados os custos com comprometimento da saúde (mortes prematuras e doenças), se contado pelo valor estatístico de uma vida (o que uma pessoa pode produzir, em média), que é de 1 milhão de yuans, o valor chega a 781 bilhões, 5,78% do PIB.

Em termos de poluição do ar, 58% da população urbana do país está exposta a partículas suspensas de até 10µg/m3 (PM10), percentual duas vezes superior à média norte-americana. Somente 1% da sociedade vive abaixo dos 40µg/m3. Em 2005, a qualidade do ar em 52% das cidades avaliadas ficava na média (até 50µg/m3); 38% no nível 3 (entre 50µg/m3. e 100µg/m3), 10% pior que nível 3 (acima de 100µg/m3). Os valores de referência são estipulados pela OMS.

Nas zonas urbanas, problemas causados pela poluição incluem redução da capacidade pulmonar, bronquite crônica, doenças cardiovasculares, hospitalizações, ausência em trabalho e escola. Problemas graves são ligados à exposição em longo prazo. As taxas são mais altas em adultos que crianças.

Conforme OMS, a concentração de SO² no ar deve ficar, no máximo, em 50µg/m3. Das 341 cidades chinesas monitoradas, 26% ficam acima da média, com 60µg/m3. 50% das cidades apresentam concentração de PM10µm de 100µg/m3. A concentração de dióxido de nitrogênio (NO2) em todas as cidades fica na média dos 50µg/m3. Cerca de 11% da população urbana está exposta à concentração acima de 150µg/m3, percentual três vezes mais alto do que a média anual norte-americana. A província de Shaanxi é a que tem mais moradores expostos à poluição de PM10, porém 41% da população de Sichuan ficam expostas a concentrações acima de 150 µg/m3.

Por um PIB verde
Há oito anos, o economista chinês Niu Wenyuan conseguiu colocar a ideia do Índice de Qualidade do PIB, o PIB verde, no planejamento econômico de Pequim. A proposta foi, contudo, vetada por instâncias provinciais, visto que a conta do meio ambiente sobre o PIB local compromete a performance das províncias frente ao governo central. A proposta voltou às mesas de discussão na metade deste ano – mas ainda se mantém mais acadêmica do que legal.

“No papel, a China tem boas políticas de proteção ambiental e crescimento verde. O problema fica na implementação pelos governos locais”, explica Watts. De acordo com análises realizadas por cientistas políticos, um crescimento abaixo dos 7% anual invariavelmente levaria o país à crise social, com desemprego e alta dos preços.

O momento é, no entanto, promissor. Ainda que o relatório dos custos de poluição do 11º Plano Quinquenal, que termina neste ano, não esteja concluído, a mudança do governo para a meta do “desenvolvimento científico contribui para o país e o mundo”, diz Watts. “A China tem muitos motivos para melhorar, e quer melhorar. A situação é tão grave que não há outra saída, em função da saúde e dos protestos dos chineses.”

Outras razões citadas por Watts como motivos para se permanecer otimista em relação às políticas adotadas por Pequim estão a necessidade da China de contar com recursos naturais, que garantem o crescimento da indústria, e o estágio de desenvolvimento. “Mas é verdade também que países no mesmo estágio de desenvolvimento da China, historicamente, levaram menos tempo para limpar seu ambiente”, reforça o escritor.

Para Watts, a situação da China é tão peculiar que é quase impossível julgar a situação ambiental do país e a evolução de sua economia sobre apenas bases históricas de comparação: “As crises econômicas revelam a alta de preços dos recursos. A China é tão gigantesca que se torna mais difícil ao país garantir recursos e limpar seu ambiente. Na verdade, a China terá de inventar um novo modelo de crescimento, pois nada é aplicável a um país do seu porte”.

Fonte :TERRA_ FERNANDA MORENA_Direto de Pequim

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