Desafios da construção civil e do mercado imobiliário: sustentabilidade e responsabilidade socioambiental

Universidade Federal de Viçosa _ MG . Foto : Divulgação

A natureza era considerada fonte inesgotável de recursos até meados do Século XX. Acreditava-se que existia para ser estudada, compreendida e explorada, desde que fosse utilizada em benefício da humanidade e suprisse seus ilimitados desejos. Observa-se o eterno dilema entre desenvolvimento econômico e preservação/conservação da natureza. Para agravar a situação, o avanço tecnológico apontava que existiriam soluções para todos os problemas. Depois da enorme degradação resultante de tais procedimentos e pensamentos, a sustentabilidade deixou de ser modismo e desponta como tendência no mundo para um novo modelo de desenvolvimento econômico, para uma “economia verde”, inclusiva e responsável.

De acordo com Edgar Morin, o início de século e milênio nos impõe a urgência de pensarmos novas alternativas diante do mundo, das relações e, portanto, das organizações. Dependemos de pensamentos e ações que determinam nossa cultura e, ao mesmo tempo, são determinados por ela. As sociedades, em sua diversidade múltipla, ditam regras e normas que são aceitas e incorporadas moralmente pelas comunidades, no intuito, cada vez mais frequente, de adequar e unificar procedimentos e critérios, que não apenas distinguem os povos, mas, sobretudo, aproximam os indivíduos membros de um grupo.

Dessa forma, nos dias atuais, as lideranças mais responsáveis, sejam elas oriundas da administração pública, do meio empresarial ou do terceiro setor, não deveriam divergir sobre a necessidade de continuarmos a gerar atividade econômica que permita garantir a sobrevivência de um planeta que passará dos atuais 7 bilhões de habitantes para a casa dos 9 bilhões em um horizonte inferior a 30 anos. Há de se considerar que o ano de 2010 representou um marco no qual pela primeira vez na história da humanidade a população urbana superou a população rural. Recentemente, o cenário mundial tem sido pautado por exigências de todos os envolvidos (stakeholders): sociedade civil, investidores, financiadores e consumidores, que obrigam as empresas a considerarem impacto de suas atividades.

No setor da construção civil, uma das atividades que mais gera resíduos e altera o meio ambiente, as exigências se acentuam pelo elevado impacto ambiental e social das atividades da extração de matérias-primas, fabricação de materiais, projeto, construção e uso e operação de edificações, empreendimentos e obras pesadas, até ao final da vida útil das edificações. A sustentabilidade, no entanto, não se restringe às questões ambientais. Os resultados financeiros e os resultados sociais gerados pelas empresas, permeados pela ética e responsabilidade social e empresarial, são fundamentais para o desenvolvimento sustentável do setor da construção e do mercado imobiliário.

Na elaboração da “Agenda 21”, nasceu um movimento denominado de “Construção Sustentável”, que visa o aumento das oportunidades ambientais para as gerações futuras e que consiste em uma estratégia ambiental com visão holística. Repensa toda a cadeia produtiva e leva em consideração os processos produtivos, com preocupações extensíveis à saúde dos trabalhadores envolvidos no processo e considera os consumidores finais das edificações. Fundamenta-se na redução da poluição, na economia de energia e água, na minimização da liberação de materiais perigosos no ambiente, na diminuição da pressão de consumos sobre matérias-primas naturais, no aprimoramento das condições de segurança e saúde dos trabalhadores, e na qualidade e custo das construções para os usuários finais.

O atual momento exige que as empresas e os empresários se tornem cada vez mais aptos a compreenderem e participarem das mudanças estruturais que abrangem os aspectos econômicos, ambientais e sociais. As companhias estão sendo incentivadas pela administração pública a gerenciar seu sistema produtivo de tal forma que se evite a ocorrência de impactos ambientais e sociais, por meio de estratégias apropriadas. Nos últimos anos houve progressos surpreendentes na área de gerenciamento ambiental. Mais recentemente, o mesmo ocorreu quanto à conscientização sobre a responsabilidade social e a crescente compreensão dos desafios de se produzir sustentavelmente.

Segundo MORIN (1997, p.62), a vida contemporânea nos coloca a possibilidade da reflexão sobre a necessidade de se adotarem nova postura e comportamento que são influenciados pelo modo de pensar; dito de outra forma, os pensamentos determinam as práticas que se estabelecem e se desenvolvem nas sociedades. Cada vez mais, a urgência e as mudanças céleres nas diversas áreas do conhecimento nos indicam que a aprendizagem dos indivíduos está em toda parte e em todos os tempos. Já compreendemos que é necessário mudar, criar novas alternativas e desenvolver critérios e procedimentos éticos diversificados, para sobrevivermos ao caos. É preciso resistir e manter viva a esperança de transformação, num mundo cada vez mais excludente e violento. Aprendemos com Edgar Morin que “A resistência é o outro lado da esperança”.

Infelizmente, ainda estamos vivendo uma grave crise mundial, um processo mundialmente desequilibrado, crise econômica e de valores, mesmo com avanços visíveis. Apesar de já existirem, são poucos os países, as empresas, que estão levando a sustentabilidade sob uma abordagem holística, integral. De fato, poucas empresas observam esse aspecto, onde se ouve muito discurso e pouca prática. No presente momento, ainda não é possível se acreditar em sustentabilidade, pois não se vê as empresas com atitudes verdadeiramente humanistas e ambientalmente preocupadas no ambiente de trabalho. É fundamental que ao lado de um grande programa de capacitação da população, devêssemos criar outro de fortalecimento das micros e pequenas empresas, porque elas podem ser a ferramenta mais importante para que se tenha um desenvolvimento econômico e social equilibrado, com diminuição das disparidades entre ricos e pobres e melhor distribuição de renda. Isso seria muito bom para todos os setores produtivos da economia, particularmente para o da construção que é grande gerador de emprego e renda.

A boa notícia, apesar de ser em número reduzido, é que setores da construção e do mercado imobiliário, no Brasil e em diversos países do Planeta, vêm se predispondo a assumir práticas sustentáveis especialmente em empreendimentos, projetos, materiais e obras e aos poucos vem incorporando a sustentabilidade nas empresas. Já existem experiências e casos de sucesso nos Estados Unidos e na França em desenvolvimento urbano e bairros sustentáveis que adotaram as recomendações surgidas na “ECO 92”. Esta tendência deve se ampliar no setor da construção brasileira, já que a construção vive um momento extremamente rico em oportunidades para as empresas que queiram se diferenciar e assumir práticas de sustentabilidade: os indicadores de crescimento da economia são animadores, o mercado imobiliário está em franca expansão, os programas públicos permitiram a entrada de novos segmentos sociais no mercado, além do turismo que será estimulado pela Copa de 2014 e pelas Olimpíadas de 2016, com muitos investimentos em infraestrutura e mobilidade urbana.

O fato é que os setores da construção civil e do mercado imobiliário terão grandes desafios para atingirem a sustentabilidade e responsabilidade socioambiental que se faz necessária. Sabe-se que para atingir esse objetivo, no médio e longo prazo, dependerá da promoção do debate e da reflexão sobre aspetos importantes da sustentabilidade no mercado imobiliário e no setor da construção, e da capacidade das empresas em reverter a disposição de promover o crescimento econômico a qualquer custo. Deverão possuir criatividade e condições internas que possam transformar as restrições e ameaças ambientais em oportunidades de negócios. Várias empresas têm demonstrado que é possível ganhar dinheiro, proteger o meio ambiente e ser socialmente responsável: é uma questão de opção e atitude.

 Fontes /Referencias :Professor MAURÍCIO NOVAES SOUZA , é Engenheiro Agrônomo, Mestre em Recuperação de Áreas Degradadas, Economia e Gestão Ambiental, e Doutor em Engenharia de Água e Solo. É professor do IF Sudeste MG campus Rio Pomba e Diretor Geral do IF Sudeste MG campus São João del-Rei. Ele é Autor do Coluna, “Ambiente Sustentável” no Zwela Angola. Visite o Blog to Prof. Novaes Souza

Maria Angélica Alves da Silva é Pedagoga, Especialista em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável e Mestranda em Extensão Rural pela Universidade Federal de Viçosa. É Pedagoga do IF Sudeste MG campus Rio Pomba.


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