Depois de anos de desmate, Amazônia ainda vive na pobreza

Belém – Depois de 40 anos de investimentos em estradas, hidrelétricas e assentamentos, a Amazônia continua pobre. Um novo estudo lançado nesta quarta pela Articulação Regional da Amazônia (ARA) revela que quase metade da população dos países que estão na bacia amazônica vivem abaixo da linha da pobreza. Somente o Brasil e a Guiana têm menos da metade de sua população amazônica acima do patamar mínimo. A pior situação foi observada na Bolívia e Equador onde 60% dos habitantes do bioma estão em situação de pobreza. (Veja gráfico abaixo)

A constatação faz parte do relatório “A Amazônia e os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio”, que concentra pela primeira vez uma avaliação sobre as oito metas estabelecidas pelas Nações Unidas para serem cumpridas até 2015. O trabalho reuniu pesquisadores de organização não governamentais dos nove países da Amazônia e foi apresentado durante o  5o Fórum Amazônia Sustentável, que ocorre até esta sexta na cidade de Belém, no Pará.

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O relatório mostra que ao mesmo tempo que não consegue gerar riqueza para sua população, a região amazônica tem quase 20% de toda a cobertura florestal nativa desmatada, sendo que grande parte tornou-se terra degradada. A maioria das derrubadas – 70% – ocorreu no Brasil, seguido por Venezuela e Peru.

Na opinião de Beto Veríssimo, pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o modelo econômico da Amazônia está “falido”, porque “possui muitas externalidades ambientais e não consegue distribuir riqueza”. Ele lembra que enquanto a participação da região no PIB brasileiro é pequena, os desmatamentos são a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa.

Em parte, o relatório sobre os objetivos do milênio segue linha da pesquisa publicada em 2007 por Veríssimo chamada do “Do Boom ao Colapso”, que aponta que cidades na Amazônia brasileira que tiveram altas taxas de desmatamento desfrutaram uma prosperidade passageira com a exploração das riquezas naturais. A maioria encontra-se com problemas de desemprego, violência e pobreza.

Veja entrevista com o pesquisador Beto Veríssimo:


Abaixo da média nacional

O estudo lançado em Belém mostrou que além da questão da pobreza e erradicação da fome, outros objetivos do milênio também estão sendo negligenciados na região amazônica. Sem exceção, em todos os países da região, a Amazônia tem desempenho abaixo das médias nacionais. A meta para a melhoria da saúde, por exemplo mostra que os casos de malárias por cada 100 habitantes estão bem acima do recomendado pela ONU. O alvo estabelecido diz que em 2015 deveria ser 20 casos por 100 mil habitantes. Somente no Brasil são 1.249 casos a cada 100 mil habitantes. No Guiana Francesa, 1931.

altInfográfico com dados dos Objetivos do Milênio. Clique para ampliar

Com relação ao objetivo que determina a garantia de sustentabilidade ambiental, o quadro também não é animador. Embora o Brasil tenha conseguido reduzir seu desmatamento, ele ainda permanece entre os mais altos do planeta. Além disso, as derrubadas estão crescendo nos países vizinhos. Outro tema é o saneamento básico, classificada como “altamente precário” pela autora Danielle Celentano, do Imazon; 65% da população amazônica já vive em grandes centros urbanos como Manaus,, com pouco menos de 10% da população com acesso a esgotamento sanitário apropriado. “Se compararmos com os níveis de 1990, houve melhora em quase todos os países, mas os indicadores sempre estão abaixo da média nacional”, avalia Danielle.

Rio + 20 e a economia verde

O estudo da ARA antecede as discussões da Rio+20, a mega conferência que ocorrerá no ano que vem e propõe exatamente discutir como a economia sustentável pode ajudar na execução das metas do milênio. Na visão dos autores, os resultados indicam a necessidade de investir em infraestrutura e geração de renda na região sem impulsionar mais degradação ambiental

O debate sobre o que de fato representa sustentabilidade nas estratégias de economia verde de cada país da Amazônia é um tema controverso entre os ambientalistas. Diretor do Programa Florestal da Sociedade Peruana de Direito Ambiental, José Luis Capella, ironizou o fato dos governos do Brasil e Peru mencionarem hidrelétricas na Amazônia como investimentos sustentáveis. “No documento brasileiro de proposta para a Rio+20, Belo Monte é citado com um bom exemplo”

De acordo com Veríssimo, o PIB de toda a região amazônica, em seus nove países é de US$ 330 bilhões enquanto somente os planos de investimento na Amazônia brasileira alcançam US$ 550 bilhões na próxima década. “A Amazônia está passando por pressões sem precedentes. Mas pode ser uma oportunidade para população local”, afirma ao mencionar que se houver investimentos em pesquisas e governança.

Gustavo Faleiros
17 de Novembro de 2011

O Eco

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