Cactos à venda deixam a Caatinga mais pobre

Os cactos estão seguindo o destino de orquídeas e bromélias, antes tão frequentes na natureza e com espécies em abundância em diferentes biomas brasileiros.
A ameaça que começou a fazer sombra sobre o futuro das cactáceas encontra como primeiro indício as 472 espécies que passaram a faze parte da Lista Oficial da Floral Ameaçada, pelo Ministério do Meio Ambiente.
A situação preocupa de forma que, em julho, foi criado o Plano de Ação Nacional para a Conservação das Cactáceas, com objetivo de se trabalhar junto com os centros de pesquisa para aumentar o conhecimento sobre as espécies de cactáceas, proteção das áreas de ocorrência de espécies ameaçadas e fortalecimento das políticas públicas em favor dos cactos ameaçados. Mais de cem estão sob o risco da extinção.O Cerrado e na Mata Atlântica são os biomas que mais espécies possuíam, embora seja comum associar um mandacaru a qualquer imagem da Caatinga. As cactáceas, no entanto, estão presentes em todos os biomas encontrados no Brasil. Na Caatinga, são comuns, inclusive na beira das estradas que ligam o litoral ao sertão e sob a placa vende-se.São cerca de 30 barracas na BR-232, no trecho entre Serra Talhada e Custódia, em Pernambuco (essas barracas são encontradas também em outras estradas e em outros estados nordestinos). Os vendedores são gente simples da região que mantém as barracas como fonte de renda alternativa à agricultura. Moram perto da rodovia e retiram os cactos dali mesmo, alugns das serras próximas.

Algumas dessas espécies estão presentes na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, como o quipá (Tacinga inamoena) e a palmatória (Tacinga palmadora). Nas barracas, também se encontra o rabo-de-onça (Arrojadoa rhodantha), mandacaru (Cereus jamacaru), rabo-de-raposa (Harrisia adscendens), coroa-de-frade (Melocactus zehntneri), facheiro (Pilosocereus pachycladus) e xique-xique (Pilosocereus gounellei).São vendidos de cinco a dez cactos por mês em uma das barracas (3.500 a 7.000 plantas por ano). Os preços vão de acordo com o tamanho dos cactos e podem variar de R$ 2,00 a R$ 10,00 para as coroas-de-frade, R$ 10,00 a R$ 30,00 para os cactos colunares (xique-xique, mandacaru e facheiro) e de R$ 5,00 a R$ 15,00 para as palmas (quipá e palmatória).

Cactos com deformações morfológicas custam mais. São alterações que podem ter ocorrido por ataque de herbívoros ou mesmo alguma doença ou modificação genética no fenótipo da planta. Os alterados não são encontrados com frequência na natureza e, por isso, são os mais valorizados (cerca de R$ 30,00).

Os cactos não são cultivados e, os próprios vendedores revelam, até mesmo as espécies colunares (como o mandacaru, facheiro e xique-xique), que podem permanecer vivos após a retirada de um braço (ramo), são derrubados.
O pesquisador Marcos Vinicius Meiado, do Laboratório de Sementes (LAS) da Universidade do Vale do São Francisco, atesta. “Não existe manejo sustentável dessas espécies que têm apelo comercial”. E pode ser ainda pior. ”Algumas plantasm como a coroa-de-frade, quipá e palmatória são retiradas integralmente da natureza (o indivíduo todo)”, relata.

Um ecossistema tem um equilíbrio a ser preservado, ensina Marcos Meiado. “Todos os cactos da Caatinga produzem frutos com polpa, que são utilizados como recurso alimentar para a fauna local, principalmente na estação seca”, conta. Outro aspecto na vida dos cactos é que o seu ciclo de vida cactos é lento e demoram décadas para que um cacto chegue à idade reprodutiva.

O quadro é ruim e pode ser pior. “Existem alguns estudos feitos com cactos de outros ecossistemas que demonstram que é necessária a produção de mais de 10 milhões de sementes pra que estas germinem e uma única planta consiga chegar à idade adulta”, relata o professor da Univasf. Dessa forma, a retirada desses indivíduos das áreas naturais, mesmo que não sejam retirados na sua totalidade, pode trazer prejuízos de médio em longo prazo.

A violência contra a natureza é encontrada perto e longe dessa mãe de todos nós. Bem, bem distante do sertão seco, na temperatura do ambiente onde você está lendo essa reportagem, na boa (e má) web, também é possível se encontrar diferentes sites, nacionais ou estrangeiros, com cactos à venda. Nem todas as espécies são nacionais, algumas exóticas mexicanas são populares (e até mesmo cultivadas para esse fim). Esse mercado revela o grande interesse que esses exemplares que gostam de água, com parcimônia, despertam.

Todos interessados em uma família com cerca de 1.300 espécies. A exceção da Rhipsalis baccifera, todas as outras espécies são americanas. O Brasil abriga o terceiro centro de diversidade das cactáceas, depois do México e do sul dos Estados Unidos, da região andina que inclui a Bolívia, a Argentina e o Peru. O Brasil possui 184 espécies encontradas apenas em nosso territória. As regiões com maior diversidade, no Brasil, são Bahia e Minas Gerais, além do Sul do Rio Grande do Sul.

As regiões mais importantes, quando o assunto é diversidade de espécie, são os sertões da Bahia e de Minas Gerais, além do extremo sul do país, no Rio Grande do Sul. crédito: excerto do folder do MMA

Celso Calheiros

O Eco

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